quarta-feira, 4 de junho de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE 4 / 5)


Teones França (Historiador)

Na era da Globalização, o fim do “futebol-arte”
Os planos iniciais não previam o México como sede do mundial de 1986. A escolhida era a Colômbia, entretanto, no início da década de 1980 o país, assim como outros na América Latina, vivia um momento econômico bastante negativo o que levou o presidente Belisario Betancur a desistir da candidatura, declarando que “não há tempo para atender as extravagâncias da Fifa e de seus sócios”. Alguns tentaram convencer o governo brasileiro, ainda chefiado pelo General Figueiredo, a promover o evento, o que foi prontamente recusado sob a argumentação de que a situação vivida por nosso país exigia “irrestrita austeridade”. Diante disso, o México se prontificou, mesmo porque os estádios utilizados em 1970 ainda estavam em boas condições.
Muitos craques se despediram das copas nesse mundial. Foi o caso de Platini, Zico, Sócrates, Falcão, Rummenigge entre outros. O jogador do torneio foi Maradona, levando a Argentina ao bicampeonato e marcando, no confronto contra a Inglaterra nas quartas de final, o que é considerado por muitos o gol mais bonito da história das copas, driblando seis jogadores desde o meio de campo, além do goleiro, antes de marcar. Quanto ao Brasil, tínhamos uma seleção que se não possuía a qualidade da que havia disputado o mundial anterior, nem um craque em plena forma como o baixinho argentino, como mínimo se equivalia às outras maiores forças da competição.
E ainda contávamos com o talento de Zico. Porém, ele passou a maior parte dos jogos no banco de reservas já que vinha de uma cirurgia no joelho. Nosso selecionado foi eliminado pela França, nas quartas de final. O jogo estava empatado em 1X1 quando, no meio do segundo tempo, o lateral Branco foi derrubado pelo goleiro Bats após um passe magistral do ídolo rubro-negro. O normal seria Sócrates bater, mas este entregou a bola para Zico que chutou fraco e o francês defendeu. Na disputa de pênaltis o Brasil foi desclassificado.
Contudo, se no momento do pênalti no decorrer do jogo, Sócrates preferiu não assumir a sua posição de liderança, em outros momentos teve atitude distinta. No primeiro jogo, quando cometeram a gafe de executar o hino da independência ao invés do hino nacional brasileiro, ele não esperou o término da execução para retirar os seus companheiros de equipe da posição em que estavam perfilados. Contundente também foi a sua postura de aproveitar a audiência do evento para em todos os jogos entrar em campo com faixas na cabeça contendo frases contra a fome, as guerras, o racismo e o imperialismo. A Fifa, obviamente, não gostou de tal atitude e proibiu posteriormente esse tipo de conduta dos jogadores em seus campeonatos. Para aqueles que conheciam Sócrates essas atitudes não causaram estranhamento já que ele sempre procurou associar o futebol à política, mas sob uma ótica que acreditava ser benéfica aos setores menos favorecidos de nossa sociedade. Dizia que “o jogador de futebol nada mais é que um representante de seu povo”. A sua liderança na construção do que ficou conhecido como “democracia corintiana” em plena ditadura militar, no início da década de 1980, é um exemplo disso.



Sócrates, líder da democracia corintiana, e uma das faixas usadas na copa de 1986

Na Itália, em 1990, tivemos uma demonstração nítida da intersecção que há entre futebol e situação política mundial. No ano anterior o muro de Berlim, símbolo da divisão da Alemanha em duas – a Ocidental, capitalista e próxima aos Estados Unidos; e a Oriental, socialista e ligada à União Soviética –, foi derrubado e o processo de reunificação dos dois países estava em curso e iria se consolidar meses depois do fim do campeonato. Nesse cenário, a vitória alemã, derrotando a Argentina na final, foi celebrada em êxtase pela população que portava nos estádios cartazes com frases do tipo “Nós somos Copa do Mundo e alguém de novo”.



Beckembauer e a seleção vitoriosa em 1990 comemoram com o povo alemão

O mesmo processo que reunificou as Alemanhas – o fim do socialismo real e, consequentemente, da guerra fria – também fez com que essa copa fosse a última de países como União Soviética, Tchecoslováquia e Iugoslávia, que se fragmentaram em vários países e, com isso, novas seleções debutariam nas copas seguintes: República Tcheca, Eslováquia, Ucrânia, Rússia, Croácia, Sérvia, Bósnia e outras. O fim de um mundo dividido em dois e o início de um globo unificado, na chamada globalização, já surtia seus efeitos junto à nossa seleção: metade dos convocados por Lazaroni jogava no exterior, contra apenas dois em 1986. Num campeonato em que prevaleceu o baixo nível técnico e esquemas defensivos caímos nas oitavas de final, perdendo para a Argentina de Cannigia e Maradona, na derrocada que recebeu a conotação pejorativa de “Era Dunga”, “modelo de jogador”, de acordo com o técnico.
A qualidade do futebol também permaneceu em baixa nos Estados Unidos, em 1994, assim como a “Era Dunga” teve continuidade. No entanto, dessa vez ganhou um tom positivo, pois o próprio, ao lado de Bebeto e Romário, foram os principais jogadores da campanha que levou o Brasil ao tetracampeonato mundial. Numa prova de que o futebol-arte era coisa do passado, o cabeça-de-área foi o jogador que mais se destacou no meio de campo pouco criativo de nossa seleção.


Presidente em 1994, Itamar Franco não perdeu a oportunidade de recepcionar os campeões

Demonstrando que nem tudo – ou quase nada – é apenas esportivo numa copa, o zagueiro colombiano, Andrés Escobar, foi assassinado em seu país dias após a eliminação da seleção logo no início dessa competição. Uma das hipóteses que pode ter motivado o crime é que apostadores, ligados ao tráfico de drogas nesse país, teriam tido grandes prejuízos com a saída precoce da seleção que era vista inicialmente como uma das promessas do mundial.
Em 1998, na França, com Rivaldo no meio de campo e Ronaldo no ataque, a seleção brasileira apresentou um pouco mais de qualidade técnica do que nas duas copas anteriores e novamente chegou à final. Dessa vez, com duas diferenças, a adversária foi a anfitriã e o resultado foi uma derrota acachapante por 3X0. Uma convulsão sofrida por Ronaldo no dia do jogo final e o fato de mesmo assim ele ter ido a campo está até hoje mal explicado, o que para alguns seria o suficiente para concluir que a CBF teria feito um acordo para que o Brasil entregasse o jogo. Indiscutível, no entanto, é que a França possuía um bom time, com Zidane de maestro, e era mais forte física e tecnicamente que a nossa seleção. O elenco francês, composto em maioria por descendentes de árabes e africanos (de países que haviam sido colônias da França até meados do século passado), tinha apenas oito jogadores filhos de mães e pais franceses, demonstrando o caráter multirracial da sociedade desse país, o que ainda é motivo de conflitos sociais e atitudes racistas, acirrados pela diminuição do mercado de trabalho na França e em outros países europeus.


Africanos, em barcos, entram clandestinamente na França à procura de uma vida melhor

Quatro anos depois o destino reservou um desfecho mais feliz para o nosso futebol. Pela primeira vez a disputa ocorreu na Ásia e em dois países-sede: Coreia do Sul e Japão. Isso porque a Fifa optou por uma decisão política já que os dois eram concorrentes e há entre eles rusgas históricas decorrentes da invasão japonesa à Coreia durante a Segunda Guerra Mundial.
Com Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo no meio e Ronaldo no ataque o Brasil chegou à final e venceu os alemães por 2X0. Na cerimônia de entrega das premiações o capitão, Cafu, apareceu nas milhões de TV’s espalhadas pelo mundo que acompanhavam a final com uma frase escrita por ele em sua camisa: “100% Jardim Irene”. Com esse gesto, além de associar o humilde bairro paulistano em que nasceu a um momento de festa, levantou a autoestima da população brasileira mais carente. Ao chegarem ao Brasil os jogadores foram recepcionados em Brasília pelo presidente Fernando Henrique que lhes concedeu a Medalha da Ordem do Mérito Nacional, num claro intuito de, tal e qual o presidente Médice, associar a conquista futebolística ao seu governo num ano de eleição presidencial. Mas, nem a aproximação com os jogadores vitoriosos ajudou muito a José Serra, candidato do presidente, que perdeu as eleições para Lula meses depois.




Cafu ergue a taça em 2002, após escrever em sua camisa “100% Jardim Irene”




FHC, à la Bellini, repete a atitude de Médice e ao lado dos campeões de 2002 ergue a taça

Já dissemos que a vitória na copa de 1990 coroou de forma sublime a reunificação das duas Alemanhas e a derrubada do Muro de Berlim. Entretanto, isso não se comparou à celebração desse país e de sua população ao sediar a copa dezesseis anos depois. Finalmente, os alemães foram às ruas empunhando bandeiras com as cores nacionais, o que não pôde ocorrer em 1974 quando a Alemanha Ocidental foi sede da competição, mas o país ainda estava dividido em duas partes. O orgulho de ser alemão, que havia sido destruído junto com o país após a derrota de Hitler na Segunda Guerra e a divulgação das atrocidades cometidas por ele e pelos nazistas, foi resgatado nessa copa. Nem o fato de ter terminado a competição em terceiro lugar diminuiu esse orgulho, conforme acreditava o técnico da seleção, Klinsmann: “Nós não ganhamos a copa, mas ganhamos o país... éramos um país com uma história negativa... o mais importante foi devolver o orgulho de ser patriota ao povo alemão”. A copa foi vencida pelos italianos, que derrotaram os franceses na final nas cobranças de pênaltis. Franceses, que desclassificaram a nossa seleção nas quartas de final.
A copa finalmente chegou à África, o continente mais pobre do planeta, após oitenta anos. A África do Sul foi a sede do mundial de 2010 e fez questão de demonstrar ao mundo que o apartheid (regime em que apenas os brancos governavam e os negros eram relegados a guetos) era coisa do passado. Não foi subserviente a todas as ordens da Fifa, como a que proibia o uso das vuvuzelas (cornetas grandes) nos estádios, sob a alegação de que eram uma manifestação cultural do país.



Na África do sul, as vuvuzelas não se calaram ao “padrão-Fifa



Mandela, expressão maior da luta sul-africana contra o apartheid, que por muitos anos foi o motivo principal para o país ser impedido pela Fifa de participar de uma copa do mundo

A vencedora foi a Espanha e seu meio de campo, composto por Xavi e Iniesta, deu esperanças aos apreciadores de que o futebol-arte poderia estar de volta. Na final derrotou a Holanda, seleção que eliminou o Brasil nas quartas de final. Dunga, o nosso técnico, procurou incutir em seus comandados o estilo de jogo de força e raça, característico de sua “era”, mas exagerou na dose, criando proibições e regras, estabelecendo a relação entre ele, jogadores e jornalistas num patamar quase militar.


                Pondo fim à análise sobre futebol e política ao longo de oitenta e quatro anos de copas do mundo, refletiremos na quinta, e última, parte deste texto a respeito das continuidades e rupturas nessa relação às vésperas do campeonato em nosso país e das principais motivações que, desde o ano passado, levam milhares de pessoas às ruas no Brasil em protestos contra o “padrão-Fifa”.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE 3 / 5)

C. A. Torres, capitão do tri, e o presidente Médice

Teones França (Historiador)

As copas sob o domínio dos ditadores

Nas duas décadas seguintes enquanto muitos ditadores massacravam vidas e valores democráticos em vários países do mundo, inclusive no Brasil, o futebol vivia momentos de glória com uma estupenda diversidade de craques espalhados pela América do Sul e Europa.
Portugal e Inglaterra conseguiram montar bons times para a copa de 1966, ocorrida neste último país, a ponto de só terem conseguido repetir tal feito apenas recentemente. O primeiro apresentou ao mundo o craque da competição, Eusébio e, não à toa, eliminou os bicampeões ainda na primeira fase – numa melancólica despedida de Garrincha das copas –, terminando em terceiro lugar. A campeã foi a seleção anfitriã, de Bobby Charlton, que derrotou a Alemanha Ocidental na prorrogação no jogo final.
Quando a copa do mundo de 1970 teve início, milhares de pessoas já haviam morrido em consequência de uma guerra, que teve dentre os motivos para ser originada um confronto pelas eliminatórias desse campeonato. Conhecido como “guerra do futebol”, o conflito entre El Salvador e Honduras deixou como saldo 6 mil mortos e começou com os jogos eliminatórios para a copa entre esses dois países. Nos anos anteriores milhares de salvadorenhos atravessaram a fronteira de Honduras, sendo vistos como invasores pela população local, então vêm os jogos e com os ânimos já exaltados, na partida na capital hondurenha, até pedras foram jogadas no hotel da seleção salvadorenha; o troco veio no jogo da volta quando o hino de Honduras foi vaiado e um pano sujo foi hasteado no lugar da bandeira do país. Um mês depois, a guerra começou.
Essa copa foi a primeira transmitida ao vivo para todo o Brasil, algo que foi bem aproveitado pela ditadura militar brasileira como exemplo de desenvolvimento proporcionado pelo milagre econômico, em que o PIB do país crescia a dois dígitos, porém, graças à concentração de renda e ao aumento da dívida externa. Nossa seleção chegou ao tricampeonato com uma linha de frente formada por cinco jogadores que eram da posição do camisa 10 em seus times: Pelé, Rivelino, Jairzinho, Tostão e Gerson, provando que o craque prescinde ao esquema tático. Sendo a primeira seleção a se tornar tricampeã, conquistou de forma definitiva a taça Jules Rimet – que seria derretida treze anos depois.
Na estreia contra a Tchecoslováquia, vencemos, mas levamos o primeiro gol e na comemoração o atacante tcheco fez o sinal da cruz em protesto contra o governo ditatorial socialista que estava à frente de seu país. Seguiram-se mais cinco vitórias, sendo que a mais difícil foi o 1X0 contra a Inglaterra, jogo em que o goleiro Gordon Banks realizou a defesa considerada a mais difícil de todas as copas. Por aqui, enquanto o presidente Médice aproveitava a vitória no campo para exaltar o país e seu governo, o governador-interventor de São Paulo, Paulo Maluf, presenteou cada atleta com um fusca, pago com dinheiro público. Já a maioria da população, inebriada por mais uma façanha de nosso futebol, via os gols de nossos craques ao som de “noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção...”, desconhecendo que inimigos do regime militar eram mortos e/ou torturados naquele momento.


Pelé, Torres e Maluf


Quatro anos depois, a Alemanha sediou pela primeira vez uma copa, porém o clima era de muita apreensão em virtude dos acontecimentos ocorridos em meio à olimpíada que teve esse país como sede dois anos antes, quando atletas israelenses foram assassinados por grupos palestinos. Na verdade, o clima político era tenso mesmo antes de começar o torneio já que a União Soviética se recusou a enfrentar o Chile na repescagem das eliminatórias no Estádio Nacional de Santiago por este ter sido o palco de atrocidades cometidas pela ditadura de Pinochet. Por isso, os soviéticos perderam o jogo por W.O. e ficaram fora da copa. Durante o torneio, pela primeira vez em uma competição internacional, as Alemanhas, Oriental e Ocidental, se enfrentaram após a divisão do país em dois – um ligado aos Estados Unidos e o outro, à União Soviética – ao final da segunda guerra mundial.


Estádio Nacional de Santiago, palco de prisão e tortura na ditadura do General Pinochet

O Brasil apresentou um time de estilo bem diferente do de 1970, que ficou conhecido pelo esquema retranqueiro de seu treinador: Zagalo, novamente. Após uma pálida primeira fase, o Brasil chegou às semifinais e cruzou com a Holanda, saindo derrotada por 2X0. Esta, por sua vez, apresentou o seu Carrossel ou a Laranja Mecânica (menção ao filme de Stanley Kubrick e cor principal dessa seleção) num esquema em que os jogadores não guardavam posição fixa e revezavam-se entre defesa, meio de campo e ataque, capitaneado pelo craque daquele momento: Cruyff. Entretanto, na final contra os donos da casa, que contavam com craques de peso, como Breitner, Müller, Overath e Beckenbauer, perderam por 2X1. Repetia-se, assim, 1954.
Da mesma forma que o Brasil, a Argentina viveu alguns anos sob o domínio de ditadores militares. Quando a copa de 1978 ocorria nesse país quem estava no governo era o General Jorge Videla, momento em que – de acordo com levantamentos recentes – mais de dez mil pessoas eram mortas, torturadas ou desapareciam para sempre.
A seleção argentina, contudo, possuía um time de jogadores talentosos, como Mario Kempes, Ardilles, Passarela e outros, mas, suspeita-se, chegou à conquista do campeonato com a interferência direta dos ditadores através de suborno e manipulação de resultados. Assim como os militares brasileiros se apropriaram do tricampeonato mundial para camuflar as atrocidades cometidas pelo governo ditatorial, a conquista argentina levou uma multidão às ruas em comemoração e diminuiu os protestos dos oposicionistas. Na final derrotou os holandeses, sem Cruyff, pois este decidira por conta própria boicotar o torneio em protesto aos problemas políticos enfrentados pelos argentinos. Mesmo não tendo seguido Cruyff, o restante do time, ao receber a medalha de prata, virou de costas para Videla – morto em 2003, na prisão, condenado pelos crimes de sua ditadura, ao contrário de seus párias brasileiros.


Videla entrega taça a Passarella, capitão da seleção argentina em 1978


Para muitos, o Brasil é quem deveria ter jogado a final contra a Holanda. Com um time composto por Rivelino, Reinaldo, Nelinho, Dirceu, Zico, entre outros, chegaríamos à final se a Argentina não derrotasse o Peru por uma diferença de quatro gols. Sensação da copa até então, o Peru fez uma partida medíocre, perdeu de 6X0 e seu goleiro, Quiroga, argentino de nascimento, falhou em vários gols.


Manchete de jornal argentino afirmava, em 2012, que um ex-senador peruano denunciou que a goleada de 6X0 dos argentinos em 78 foi fruto de acordo entre as ditaduras dos dois países, aliadas na Operação Condor, criada pelas ditaduras da América do Sul para reprimir opositores

Quatro anos depois a Argentina se envolveria numa guerra contra um inimigo externo. Documentos descobertos recentemente indicam que Margaret Thatcher pensou em retirar as seleções britânicas (Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte) da copa da Espanha, em 1982, porque tinha receio de um possível confronto entre esses países e a Argentina já que um dia após o início do mundial a guerra das Malvinas terminara com a vitória dos ingleses sobre os sul-americanos. Não se sabia, inclusive, qual poderia ser a atitude dos hooligans (violentos torcedores ingleses), tão temidos naquele momento. No final das contas todas as três seleções britânicas participaram do evento e não enfrentaram os hermanos.
Apesar de campeã do mundo e de contar com o excepcional Maradona despontando para o futebol mundial, a Argentina cumpriu papel de coadjuvante numa copa em que duas outras seleções brilharam: a italiana, que se sagraria campeã, e a brasileira. Sob a batuta de Telê Santana nossa seleção reuniu um elenco bastante técnico, formando um conjunto (Leandro, Júnior, Falcão, Sócrates, Zico etc.) que, apesar de derrotado pela própria Itália nas quartas de final, ainda é visto como um dos maiores times de todos os tempos. A única exceção poderia ser o centroavante Serginho, mas não esqueçamos que o titular até meses antes do mundial era um dos melhores atacantes que nosso futebol já produziu: Reinaldo. A derrota de 3X2 para os italianos deu início à tese do futebol de resultados – é melhor jogar feio, mas ganhar – que afastará gradativamente o nosso futebol de sua tradição de associá-lo à arte. Ela também gerou um clima de luto país afora, pois nunca antes – e, talvez, nem depois – o futebol mobilizou tanto nosso povo a ponto de praticamente todas as ruas estarem coloridas de verde e amarelo, algo que até se repetiria dois anos depois, não por causa da copa do mundo, mas para exigir eleições diretas para presidente.

Menino-símbolo do luto brasileiro após a eliminação para a Itália em 1982


                Na 4ª e penúltima parte iremos analisar a relação entre futebol e política num cenário mundial bem distinto do que vimos aqui. O fim da guerra fria, o início da chamada globalização, a reunificação das Alemanhas serão processos que influenciarão todo o mundo e o futebol não ficará de fora. O futebol-arte chega ao fim enquanto adere à sociedade do espetáculo e as copas passam a adquirir o padrão-Fifa.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE 2 / 5 )





Teones França (Historiador)

Do trágico gol de Ghiggia ao epíteto de “país do futebol”

                A 2ª guerra mundial (1939-1945) gerou um interregno de doze anos entre o quarto e o quinto mundial. Os times atuais do Palmeiras-SP e do Cruzeiro-MG, que se denominavam Palestra Itália, tiveram que alterar seus nomes em virtude da menção ao país fascista. Diante de uma Europa destruída pelo conflito, a Fifa decidiu que a sede deveria novamente retornar à América do Sul e o Brasil foi o escolhido por ser o único candidato. A copa de 1950, pela 1ª vez, contou com a participação de uma seleção inglesa e ela foi derrotada pela seleção amadora dos Estados Unidos no jogo que é considerado a maior zebra da história das copas.

                No quadrangular decisivo, o Brasil de Zizinho, Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto e Barbosa chegou ao jogo final contra o Uruguai num Maracanã com cerca de 200 mil apoiadores – 10% da população carioca – precisando apenas de um empate para se sagrar campeão. Iniciou ganhando, mas viu Ghiggia fazer 2X1 aos 34 minutos da etapa final. Para os jogadores, que carregaram o estigma dessa derrota até a morte, o excesso de otimismo foi a principal causa do infortúnio brasileiro.


Gol do uruguaio Ghiggia calou o Maracanã em 1950

               
Na semana do confronto decisivo, vários políticos visitaram a seleção para tirar fotos com os atletas porque era época de eleição. No dia da partida um jornal circulou pela manhã com uma montagem da foto do time campeão. A comoção nacional oriunda dessa derrota pode ser explicada pelo fato do Brasil, país ainda agrário e subdesenvolvido, ter iniciado aquele jogo com a chance real de ser, ao menos no futebol, o melhor do mundo. Mas, ao final da partida, só restou ao povo aceitar cabisbaixo a máxima de Nelson Rodrigues: não nos tornávamos os melhores porque sofríamos do “complexo de vira-lata” com o qual “o brasileiro se colocava, voluntariamente, como inferior em face do resto do mundo”. Para os negros do time – como o goleiro Barbosa – o sofrimento foi ainda maior, pois foram os maiores responsabilizados pela derrota.


Barbosa, goleiro do Vasco, chora após a derrota para o Uruguai


    Quatro anos depois, na Suíça, nossa seleção caiu nas quartas de final para a Hungria, que, com Puskas à frente, é considerada por muitos como o maior time de todos os tempos. Após o fracasso de 1950 e as acusações de que a seleção jogara sem raça, a comissão técnica criou um clima de patriotismo exacerbado entre os jogadores a ponto de terem que decorar o hino nacional e beijar a nossa bandeira antes de entrar em campo. Já os húngaros só perderam na final para a Alemanha no que ficou conhecido como “milagre de Berna”. Os alemães, por sua vez, triunfavam poucos anos após a sua derrota na segunda guerra. O capitão do time, Fritz Walter, afirmou posteriormente: “o triunfo nos deu a sensação de que éramos de novo importantes”.

                Ao menos nos campos de futebol o nosso “complexo de vira-latas” começou a ser superado em 1958 já que o Brasil, com uma equipe formada por craques do quilate de Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Didi, sagrou-se campeão mundial pela 1ª vez na Suécia. Dentre os times vencidos pelos brasileiros estava a temida União Soviética, país que, para espanto mundial, um ano antes havia enviado ao espaço o primeiro satélite artificial, o Sputnik, deslanchando a corrida espacial. Nos primórdios da guerra fria (disputa geopolítica entre Estados Unidos, capitalista, e União Soviética, socialista), especulava-se que os soviéticos apresentariam um futebol de laboratório, desenvolvido com métodos secretos de treinamento. Nada disso se viu e – o negro – Pelé, com apenas 17 anos, passeou nos campos suecos com seu vasto repertório de dribles, passes e gols, alforriando definitivamente os negros para a prática do futebol por aqui. Nossa população, vivendo o clima do otimismo propagandeado pelo governo de Juscelino Kubitschek, cantava em coro nas ruas a marchinha “A taça do mundo é nossa / Com brasileiro, não há quem possa...”.


Bellini, capitão em 1958, pioneiro no gesto de erguer a taça acima da cabeça



Tradicional uniforme da União Soviética, um dos times mais temido na aurora da guerra fria. Utilizado até a copa de 1986, por causa do fim da URSS na década seguinte, é atualmente uma das camisas da linha retro mais vendida. O CCCP, em português, quer dizer União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Em 1962 a disputa futebolística retornou à América Latina, justamente no ano mais tenso da guerra fria para a região, quando os americanos descobriram que os soviéticos instalavam bases para lançamento de mísseis em Cuba, o que deu início ao bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos aos cubanos. Sem querer saber de política mundial, a seleção brasileira chegou ao bicampeonato com um time em que constavam vários jogadores presentes na disputa anterior, como Garrincha, Vavá, Zagalo, Nilton Santos e Pelé. Este último, no entanto, machucou-se no segundo jogo e o anjo das pernas tortas chamou a responsabilidade para si e comandou a equipe. O mundo exaltava “o país do futebol”.


Garrincha, craque da copa de 62, e Pelé, craque da edição anterior


               
 Na próxima parte trataremos das copas ocorridas entre 1966 e 1982, período em que o mundo se encantou com o futebol-arte e se amedrontou com a guerra fria e os diversos tipos de ditaduras.




domingo, 11 de maio de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE I / 5)

Teones França, historiador e professor da rede estadual RJ

Mito marcante de nossa cultura, a imagem do Brasil como um país de povo cordial e acolhedor, tendo no futebol o elo unificador de uma nação em harmonia tem sido questionada por manifestações de rua que, apesar de minoritárias até o momento, entoam gritos do tipo: “não vai ter copa!” ou “da copa eu abro mão. Quero mais dinheiro para a saúde e a educação!”. Questionando os altos gastos públicos com o evento e as exigências do “padrão-Fifa” em detrimento dos investimentos sociais, elas indicam que as disputas nesta competição que começa em junho extrapolarão as quatro linhas do campo e apontam para uma relação, nem sempre amistosa, entre futebol e política. Isso não é algo novo e exclusivo do nosso país. Ou melhor, essa relação – entre futebol e política – esteve presente em praticamente todas as dezenove copas realizadas até 2010. Através de um breve resumo sobre a participação brasileira em todos esses campeonatos, dividido em cinco partes, aprofundaremos essa discussão.

Nossa seleção antes das copas 
O primeiro jogo aceito de fato como sendo de uma seleção brasileira ocorreu em 1914. Isso porque nesse confronto amistoso contra o time inglês do Exeter City apenas jogadores brasileiros vestiram a camisa branca – a cor amarela só foi adotada em 1952 – do combinado formado por atletas do eixo RJ-SP e que venceu os ingleses por 2X0. 

1ª camisa utilizada pela seleção com a sigla da Federação Brasileira de Sports (depois CBD, atual CBF).

Camisa das 1as copas, com o símbolo da CBD

Após essa data, nossa seleção conquistou dois sul-americanos, em 1919 e 1922, ambos no Rio de Janeiro, tendo como principal craque nesses títulos o jogador paulistano Arthur Friedenreich. Mulato, filho de alemão, ele tinha como hábito passar muito tempo antes dos jogos alisando o cabelo na tentativa de diminuir os olhares enviesados do público, pois tinha certeza de que só lhe era permitido jogar em grandes clubes de elite e na seleção por ser descendente de europeu. 

Friedenreich

O ritual do atleta era compreensível porque naquele momento no Brasil negros não eram aceitos nos times considerados grandes e muito menos na seleção que representaria o país. Uma das exceções foi o time do Vasco, campeão carioca de 1923, fato que levou os vascaínos a sofrerem punições esportivas. Essa situação começou a mudar com a profissionalização no início dos anos 1930, que permitiu a proliferação de negros em nosso futebol e a caracterização definitiva de nosso estilo de jogo como fruto do malabarismo dos craques de ébano. Tal mudança fortaleceu mais um mito de nossa cultura: a de que vivemos numa democracia racial.

As copas do fascismo nos anos 1930
A 1ª guerra mundial e a destruição territorial e econômica da Europa que ela ocasionou atrasaram por alguns anos a disputa de um campeonato de futebol de caráter intercontinental. As Olimpíadas seguiram acontecendo, mas estas já ocorriam desde 1896 e, além do mais, envolviam vários esportes. Havia o temor, portanto, de que uma competição internacional de um único esporte, o futebol, fracassasse, o que impediria a sua continuidade.

Em 1930, a Fifa decidiu que havia chegado o momento, porém a Inglaterra – país que estabeleceu as regras do futebol moderno – achou por bem ficar de fora por discordar da tolerância da entidade esportiva com o futebol amador praticado na maioria dos países.

Benito Mussolini logo se prontificou para que a Itália fosse a sede da 1ª copa, com a intenção de que o evento servisse de propaganda à ditadura fascista, comandada por ele desde 1922. O Uruguai, contudo, propôs bancar todas as despesas de viagem e alimentação dos participantes e foi escolhido como sede. Em represália, a Itália boicotou o mundial, que teve poucos participantes – apenas 14 – já que muitos desistiram em função da crise econômica mundial que chegara ao ápice no ano anterior.

O Brasil participou sem os jogadores de São Paulo em função da briga entre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e os paulistas. Com isso, craques como Friedenreich ficaram de fora e a nossa seleção foi eliminada na 1ª fase. O Uruguai, embalado pela conquista das duas últimas Olimpíadas – por isso, conhecido como Celeste Olímpica – sagrou-se vencedor.

Quatro anos depois, finalmente conseguindo sediar o mundial, o governo italiano sabia que esse era o momento para “mostrar ao universo o ideal fascista do esporte”, como afirmou na ocasião um dos generais de Mussolini, e a Itália sagrou-se campeã sem adversários à altura, mesmo porque o campeão anterior deu o troco e boicotou o torneio. O Brasil novamente enfrentou problemas, pois os times se recusaram a ceder seus jogadores para a CBD porque esta ainda defendia o amadorismo. A CBD acabou tendo que ceder e decidiu pagar salários aos convocados, porém, mesmo contando com craques do calibre do negro Leônidas da Silva, a seleção brasileira chegou tarde à Europa e, sem tempo para descanso, foi eliminada logo no primeiro jogo ao ser derrotada pela Espanha.

Jogadores italianos fazem a saudação fascista a Mussolini

Em 1938, num mundo já sentindo as primeiras turbulências da segunda guerra mundial, a Itália novamente sagrou-se campeã e seu capitão, Giuseppe Meazza, ao receber a taça, ergueu o braço e fez a saudação fascista em homenagem a Mussolini. A Alemanha nazista de Hitler, por sua vez, não conseguiu seguir o exemplo de seus parceiros italianos. Tentou sediar o evento para mostrar ao mundo a supremacia da raça ariana alemã – assim como fez dois anos antes nas olimpíadas de Berlim –, mas Jules Rimet, presidente da Fifa, logrou êxito em levar a competição para o seu país, a França. 
No Brasil, com a difusão do rádio, muitos conseguiram torcer por nossa seleção, mesmo que ao som de alto-falantes em praças públicas, já que ter rádio em casa não era para qualquer um. O governo ditatorial de Getúlio Vargas tentou tirar proveito da popularidade do selecionado brasileiro. O Brasil terminou a disputa em terceiro lugar, tendo perdido por 2X1 na semifinal para a campeã da competição e Leônidas da Silva foi o artilheiro, com sete gols marcados.

Leônidas em sua jogada tradicional, da qual foi precursor: a bicicleta.

O início da 2ª guerra paralisa o mundo e as competições esportivas. A próxima copa só seria realizada em 1950 e a população da sede escolhida, o Brasil, sofreria um dos maiores revezes da história do nosso futebol. Em contrapartida, se o início da década foi triste, ao seu final seríamos reconhecidos como o verdadeiro país do futebol. É esse o período analisado na próxima parte.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O VERÃO DO ROLEZINHO. AS JORNADAS DE JUNHO TÊM SEQUÊNCIA.



Teones França, historiador e professor da rede estadual RJ.

“... Eu vou à luta com essa juventude
que não corre da raia a troco de nada...”.

   Já foi dito por diversos autores e, portanto, não é mais novidade afirmar que vivemos numa sociedade consumista na qual a importância às pessoas é conferida pelo que elas têm e não pelo que elas são (e muito menos pelo que pensam, ou se pensam). O sujeito que aparenta ser um pé rapado é solenemente ignorado pela maioria à sua volta, mas basta sacar do bolso o seu iphone 5S com a figura da maçã mordida reluzindo para que rapidamente os que o ignoravam passem a admirá-lo.
   Talvez o símbolo que melhor represente esta sociedade capitalista do consumo frenético seja o Shopping Center com suas diversas vitrines expondo as últimas novidades, e os vendedores – interessante como raros são negros –, ávidos para aumentar suas comissões, forçando um sorriso simpático aos possíveis compradores que certamente serão mais bem atendidos se entrarem na loja com uma maçã mordida ao ouvido.
   Há pouco mais de vinte anos um grupo ligado ao Movimento dos Sem Terra foi obrigado a se retirar de um Shopping quando, sem carregar nenhuma ferramenta que pudesse ser letal, caminhavam em frente às suas vitrines num protesto pacífico com o objetivo de demonstrar o contraste entre o consumismo do meio urbano e a carência do meio rural. Um gesto político avassalador pode prescindir de gritos!
   Numa lógica parecida temos observado neste verão grupos de milhares de jovens marcarem encontros através do facebook para, juntos, caminharem pelo interior de um Shopping, no que chamaram de “rolezinho”*. Nas páginas virtuais em que marcam a atividade, esse movimento, originado no interior de São Paulo, não propõe violência, gritos, palavras de ordem etc., mas apenas a caminhada em frente as lojas. Apesar disso, a gerência de alguns desses estabelecimentos tentam proibir esses encontros através de decisões judiciais e da retirada das páginas virtuais dos manifestantes, alegando que a quantidade de pessoas irá inibir os consumidores e causará atitudes violentas. Naturalmente é difícil obter o controle de milhares de manifestantes num ambiente fechado, mesmo porque não há lideranças explícitas, entretanto, a segurança num estabelecimento privado cabe a este, que não tem, por sua vez, poder para proibir o ir e vir das pessoas.
   Diante do inusitado dessas manifestações e de sua adesão inicial país afora vários veículos de comunicação fazem reflexões que primam pelo conservadorismo com críticas aos manifestantes. Cabe àqueles que se propõem a analisar a sociedade sob a ótica dos trabalhadores apontarem as reflexões que podem extrair desse processo.
Em primeiro lugar, é importante destacar que ele está associado às jornadas de junho e apresenta muitas de suas características: o seu caráter massivo e jovial, o mundo virtual como elemento aglutinador, o questionamento do status quo, o fato de não haver intimidação diante da ordem vigente e atitudes incisivas e inovadoras.
Outro aspecto a se destacar é a pujança da atual geração de jovens brasileiros. A juventude per si é rebelde e, em geral, as transformações sociais têm nesse setor o seu motor de propulsão. Mas, em qualquer sociedade, as gerações de jovens são diferenciadas entre si, influenciadas que são pelo momento histórico em que surgem e pelas especificidades de cada país. Assim, temos que a geração que vivenciou o golpe militar de 1964 era extremamente questionadora e crente na possibilidade de transformar o mundo. A geração que a seguiu – os “filhos da revolução” – já era mais resignada com a ordem vigente, mas nem por isso pouco rebelde. A geração Collor, apesar de ter contribuído para derrubar o presidente, vivenciou a queda do muro de Berlim e de valores até então pouco questionados sendo, por isso, menos preocupada com a transformação do status quo. Algo que se acirrou com os jovens crescidos no final do século passado e início deste, em grande parte mais envolvidos com as inovações tecnológicas e anestesiados pelo torpor característico do começo da Era Lula.
Os jovens de quinze a vinte anos hoje vivenciam uma época de turbulências sociais que têm a juventude como ponta de lança; um momento econômico brasileiro em que cada vez é mais difícil esconder o caos através de maquiagens com algo do tipo “país em vias de desenvolvimento”, “parte do bloco dos Brics” etc.; e uma situação política cercada por mensalões e descrença crescente na sociedade quanto as ditas “instituições democráticas” quase trinta anos após o fim da ditadura militar. Esse caldeirão faz a atual juventude ferver acreditando na necessidade/possibilidade de transformação social que não tem, para ela, um espelho no passado que lhe sirva de referência. Daí os métodos inovadores e as críticas ao que ela considera “velho” no campo das organizações sociais.
Mas, por que os Shoppings? Essa questão é mais fácil de responder, pois, sabemos que esses estabelecimentos estão vinculados ao consumo. A questão é: por que a adesão massiva?
Os que defendem que os anos de governos petistas criaram um novo modelo de desenvolvimento econômico em nosso país, denominado por eles de “neodesenvolvimentismo”, propalaram que se criou por aqui uma nova classe média, que deixou de se inserir nos índices dos que compõem a classe abaixo por ter aumentado sua renda e, consequentemente, o seu consumo. Alguns intelectuais, num campo mais à esquerda, já se ocuparam em desmistificar essa tese e defender outra que aponta, igualmente, para o surgimento de um novo setor social em nosso país, mas não uma nova classe média e sim uma nova classe de trabalhadores mais pauperizados.
Esses novos trabalhadores foram convencidos pelo canto da sereia do governo de que teriam crédito para consumir eletrodomésticos e outros produtos diversos. Terminaram por fim a aumentar o rol dos nomes que compõem o Serviço de Proteção ao Crédito e o Serasa já que a maioria não teve como saldar as dívidas contraídas, ou ao menos comprometeram o orçamento familiar para seguir saldando-as. A proposta petista de aquecer a economia através do crédito ao consumo e isenção fiscal aos empresários teve como principal resultado o endividamento daqueles chamados de “nova classe média”.
Assim, os rolezinhos são, em primeira instância, uma demonstração de que os setores menos favorecidos de nossa sociedade estão alijados da possibilidade de exercer o seu consumismo num mundo que prega o consumo, e sobrevive dele. Não é coincidência que essas manifestações tiveram origem em regiões do interior paulista e seus componentes fossem essencialmente pretos e pobres.
   Por fim, cabe refletir sobre a aversão a esses movimentos advindas dos veículos de comunicação e de grande parcela da nossa sociedade. Alguns chegam a afirmar que Shopping não é lugar para manifestação. Aqui é inegável a presença do pensamento da verdadeira classe média, tendo em vista que os setores burgueses pouco se importam com os roles pois fazem suas compras em Paris.
   Cabe então à classe média – que almeja atingir algum dia o patamar da burguesia e que, por isso, recusa se aproximar das classes sociais menos favorecidas – a crítica a essas recentes manifestações da nossa juventude. Os Shoppings Centers são muitas vezes o seu lugar de refúgio, seja para fugir do calor, para um papo tranquilo bebericando um cafezinho na Koppenhagen e, claro, para consumir, buscando dessa maneira diminuir a depressão. Um refúgio que a afasta do perigo – e do odor – dos setores menos abastados. Nesse prisma é natural que acreditem que Shopping não é lugar de manifestação.

“... eu vou no bloco dessa mocidade
que não tá na saudade e constrói
a manhã desejada...”.

* este artigo foi redigido em meados de janeiro, quando o fenômeno juvenil que ficou conhecido como "rolezinho", protagonizado por jovens da periferia, se espalhou de São Paulo para o restante do país; atingindo outras cidades como Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo. (N. A.)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O marxismo clássico e os limites do sindicalismo



Teones França (Historiador e professor da Rede Estadual RJ)

            Desde as últimas décadas do século XX, é comum escutarmos que o sindicalismo brasileiro vive uma crise que teria sido ocasionada por vários aspectos, como os efeitos das recentes transformações produtivas e do fim do chamado socialismo real sobre o mundo do trabalho e o movimento sindical. A grande maioria daqueles que analisam esse processo não incluem como um dos fatores que impulsionam essa crise os limites inerentes à própria ação sindical e a dificuldade que esta tem - e sempre teve - em associar as lutas econômicas (sindicais) às lutas políticas mais gerais. Nesse caso, um retorno às análises do marxismo clássico pode ser muito útil.


            Este artigo tem por objetivo realizar esta ida ao passado e está dividido em duas partes, ambas com o intuito de destacar considerações de Marx, Engels, Lênin e Trotsky sobre a importância do movimento sindical e os limites do sindicalismo.


            Desde já, é importante apontar que os dois primeiros tiveram contato com um tipo de sindicalismo diferente daquele que Lênin e Trotsky conheceram. Marx e Engels fizeram parte de um período histórico em que o movimento sindical ainda não tinha se tornado de massa, onde a forma predominante de sindicalismo era a de ofício, já que, apenas durante as últimas décadas do século XIX, os sindicatos difundiram-se como expressão organizada e de massa do movimento operário. Entretanto, como destaca Alves, as afirmações de Marx a respeito do sindicalismo, em especial sobre os limites deste, devem ser generalizadas e não somente associadas a um caso particular, como o sindicalismo de ofício, por exemplo[1].


A importância do movimento sindical.
            Os fundamentos históricos da concepção de Karl Marx e dos marxistas em geral sobre sindicatos – e seus limites foram postos na obra do jovem Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, escrita entre 1844 e 1845 [2]. Nesse trabalho, verifica-se que, ao atestar que a concorrência não existe apenas entre os capitalistas, mas também entre os próprios trabalhadores, Engels afirmava que os sindicatos seriam os primeiros esforços dos trabalhadores para suprimir essa concorrência entre si e os via como um instrumento importante para conter a ânsia dos capitalistas:


“Se o industrial não contasse com uma oposição concentrada e maciça da parte dos seus operários, baixaria gradualmente, cada vez mais, os salários, para aumentar o seu lucro; a luta que tem de manter contra os seus concorrentes, os outros industriais, obriga-lo-ia a isso e em breve o salário atingiria o seu nível mínimo” [3].


            Os sindicatos serviriam, então, como anteparo aos ataques dos industriais que não hesitariam, caso não encontrassem resistência, em vilipendiar cada vez mais a condição de vida dos trabalhadores para obter melhor situação na concorrência com outros capitalistas. Nessa lógica, a principal expressão da indignação dos proletários contra a situação imposta pelos patrões seriam as greves que, apesar de não terem muito sucesso isoladamente, agiriam como uma escola de guerra dos operários, momento em que esses se preparariam para o grande combate, ou seja, para a destruição da sociedade capitalista.


            As primeiras considerações de Marx sobre os sindicatos encontram-se na Miséria da filosofia, texto em que ele procura demonstrar a falsidade do pensamento de Proudhon, que afirmava serem inúteis os sindicatos e as greves por melhores salários, pois o seu êxito traria como conseqüência a inflação.


            Para Marx, a luta principal a ser protagonizada pela classe operária na sociedade capitalista seria a revolução social, a partir da qual estaria colocada a possibilidade de se alcançar uma sociedade sem exploradores e explorados. Nesse sentido, a luta sindical teria a capacidade de dar uma lição moral aos operários, ensiná-los a agir coletivamente, de forma organizada, conscientes de seu poder enquanto classe que produz a riqueza social. Percebe-se que a visão da luta sindical como escola, presente em Engels, também se encontrava em Marx, que entendia que por meio dessa luta os trabalhadores poderiam avançar em sua consciência de classe e chegar a constituir um partido político próprio da classe operária [4].


            O papel que cabia aos sindicatos, de acordo com o pensador alemão, não era então de pouca importância. Eles serviriam para constituir os operários em classe, organizando-os, educando-os, para a tarefa maior, que seria a revolução social. No entanto, esse movimento político associado à revolução e que Marx considerava de maior importância não poderia ser desvinculado totalmente do movimento social, econômico, pois é a própria luta econômica, sindical, que transforma o proletariado em classe para si.


“As condições econômicas, inicialmente, transformaram a massa do país [se refere à Inglaterra] em trabalhadores [travailleurs]. A dominação do capital criou para essa massa uma situação comum, interesses comuns. Essa massa, pois, é já, ante o capital, uma classe (...) mas ainda não o é para si mesma (...). Na luta que assinalamos algumas fases, essa massa se reúne, se constitui em classe para si mesma (...). Os interesses que defende se tornam interesses de classe. Mas a luta entre classes é uma luta política” [5].


            A luta sindical possibilita que a classe trabalhadora deixe de ser meramente classe em si e se transforme em classe para si na luta contra o capital e os sindicatos. Por sua vez, teria o mérito de agrupar essa massa, fazendo-a mais coesa e, logo, mais forte no embate da luta de classes.


            Tanto Lênin quanto Trotsky seguiam a análise de Marx e Engels e enfatizavam o aspecto educativo dos sindicatos para a classe operária. Para o segundo, os sindicatos, assim como o partido revolucionário, eram importantes para que o proletariado compreendesse a sua missão histórica, ou seja, ser o sujeito social da revolução social – “se o proletariado, como classe, fosse capaz de compreender imediatamente sua tarefa histórica, não seriam necessários nem o partido nem os sindicatos. A revolução teria nascido, simultaneamente, com o proletariado” [6].


            Lênin trazia à tona a definição de Engels a respeito das greves, escola de guerra, mas alertava que elas ainda não seriam a própria guerra, apenas um dos meios da luta operária por sua emancipação [7]. O revolucionário russo fazia uma bela caracterização dos efeitos devastadores de uma greve sobre a sociedade capitalista e mesmo sobre os próprios trabalhadores:


“Toda greve acarreta ao operário grande número de privações, além disso são terríveis que só podem comparar com as calamidades da guerra (...) E apesar de todas essas calamidades, os operários desprezam os que se afastam de seus companheiros e entram em conchavo com o patrão. (...) Amiúde, basta que se declare em greve uma fábrica para que imediatamente comece uma série de greves em muitas outras fábricas. Como é grande a influência moral das greves, como é contagiante a influência que exerce nos operários ver seus companheiros que, embora temporariamente, se transformam de escravos em pessoas com os mesmos direitos dos ricos! Toda greve infunde vigorosamente nos operários a idéia do socialismo: a idéia da luta de toda a classe operária por sua emancipação do jugo do capital” [8].


            Assim, temos que a luta sindical, apesar de limitada, cumpre um papel preponderante no avanço das consciências em direção ao socialismo e à solidariedade de classe. Devemos reconhecer que é impossível observar essas palavras de Lênin e não nos remetermos às greves de fins dos anos setenta no ABC paulista e toda a sua influência país afora, assim como os estragos gerados para a classe dominante brasileira naquele momento.


Limites do sindicalismo.
            Apesar de concordarem sobre a importância dos sindicatos, todos os quatro autores analisados também concordam que a luta sindical tem limites e que não se pode separar a luta econômica da luta política mais geral. Engels, em seu trabalho supracitado, apontava para a pouca eficácia das greves por duas razões em especial. A primeira, pela quebra de solidariedade entre os operários, ocasionada pelos chamados fura-greves, promovida pela concorrência entre eles próprios; e a segunda, pela impotência das trade unions inglesas diante das crises cíclicas da economia capitalista, que geravam diminuição de salários, fechamento de fábricas, greves mais curtas até mesmo em função do esgotamento mais rápido dos fundos sindicais. A prática sindicalista se submeteria totalmente, segundo essa visão, ao movimento do capital.


            As lutas dos sindicatos eram consideradas por Engels como lutas meramente defensivas, em geral lutas locais, de caráter profissional, sem um caráter político propriamente dito, que não mudariam a condição geral da classe proletária, mas apenas de operários de algumas fábricas [9]. Bem diferente para o autor eram as lutas associadas ao movimento cartista, pois esse sim era um movimento político que buscava representar os interesses de toda a classe trabalhadora.


            Os limites do sindicalismo para Marx seguiam uma lógica muito próxima a de Engels. Para o primeiro esses limites estariam postos pela sua natureza essencialmente defensiva, isto é, a luta pela elevação dos salários (ou contra a sua redução) ocorre apenas como decorrência de modificações anteriores postas pelo movimento do capital [10].


            Em Salário, preço e lucro - onde trava uma polêmica com o owenista John Weston, muito semelhante à que havia travado com Proudhon - Marx expõe de forma mais nítida as limitações da luta meramente econômica desenvolvida pelos sindicatos na sociedade capitalista:


“Os operários não devem superestimar o resultado final dessa luta [sindical] quotidiana. Não podem esquecer que lutam contra os efeitos e não contra as causas desses efeitos, que o que fazem é refrear o movimento descendente, mas não alterar o seu rumo; que aplicam paliativos e não a cura da doença (...) Em vez da palavra de ordem conservadora 'um salário justo por um dia de trabalho justo'’ devem inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: abolição do salariado’”.


E, em outra passagem:


“Os sindicatos atuam com utilidade como centros de resistência às usurpações do capital. Deixam em parte de atingir o seu objetivo quando utilizam a sua força de forma pouco inteligente. No entanto, deixam inteiramente de o atingir, quando se limitam a uma guerra de escaramuças, contra os efeitos do regime existentes, em vez de trabalharem, ao mesmo tempo, para a transformação e servirem-se da sua força organizada como de uma alavanca para a emancipação definitiva da classe trabalhadora, isto é, para a abolição definitiva do sistema de trabalho assalariado” [11].


            As conquistas sindicais não podem iludir a classe trabalhadora a ponto desta minimizar o fato de que não houve mudanças no rumo do sistema de trabalho assalariado e que em pouco tempo essas conquistas já não serão percebidas e novas lutas deverão acontecer para buscar se obter as mesmas vitórias. A importância das organizações sindicais era destacada por Marx, como já salientamos, por impedir o avanço devastador da sanha do capital, porém, enquanto continuassem a lutar somente contra os efeitos do sistema e não efetivamente contra as suas causas, estariam caminhando em círculo e se omitiriam de apresentar uma contribuição mais relevante para a superação do trabalho assalariado.


            Para enfrentar o capital, Marx considerava que os operários deveriam exercer uma ação política geral, fazendo uma pressão constante de fora do âmbito da relação meramente salarial, até porque na luta puramente econômica entre capital e trabalho, o primeiro tende a ser muito mais forte.


            Em um mesmo sentido, Lênin enfatizava que a luta econômica não deveria ser a preocupação exclusiva do movimento operário. Para ele, era equivocado supervalorizar greves vitoriosas porque com as associações profissionais (...) dos operários e com as greves consegue-se apenas, no melhor dos casos, alcançar condições um pouco mais vantajosas para a venda da mercadoria chamada força de trabalho. Essas associações e as greves não podiam ajudar quando a força de trabalho não fosse procurada em virtude da crise econômica, não podiam modificar as condições que convertiam a força de trabalho numa mercadoria e que condenavam as massas trabalhadoras às mais duras privações e desemprego. O que teria o poder de mudar essa situação negativa para o proletariado, na sua visão, era a luta revolucionária contra todo o regime social e político atual [12].


            Para o principal líder da revolução russa, aquilo que os revolucionários afirmavam para a classe operária deveria ser exatamente o oposto do que dizia a burguesia. Enquanto esta tentava iludir o proletariado para que ele centralizasse a sua atenção principal nos sindicatos, os revolucionários preocupavam-se em alertar o proletariado - classe mais avançada e a única revolucionária até as últimas conseqüências - de que não deveria se restringir aos limites econômico-salariais da luta de classes puramente, sobretudo ao aspecto do movimento sindical, mas, pelo contrário, tratar de ampliar os limites e o conteúdo da sua luta de classe até abranger nesses limites não só todas as tarefas da atual revolução democrático-popular russa, como também as tarefas da revolução socialista que há de segui-la [13].


            Nesse sentido, acreditava que a consciência social-democrata, que abrangeria a necessidade da revolução socialista como uma tarefa maior e mais importante do que a luta sindical, só poderia chegar até os operários a partir de fora, ou seja, a partir da influência do partido revolucionário. Isso era corroborado, de acordo com Lênin, pela história de todos os países até então, que demonstrava que pelas próprias forças, a classe operária não poderia chegar senão à consciência sindical, isto é, à convicção de que é preciso unir-se em sindicatos, conduzir a luta contra os patrões, exigir do governo essas ou aquelas leis necessárias aos operários etc. [14].


            Considerando também que o sindicato tem a sua importância, mas, devido às limitações da luta sindical, não passava de um coadjuvante na busca pela superação do trabalho assalariado, na qual o partido revolucionário exerceria o papel principal, Trotsky entendia que as associações sindicais, por seus objetivos, sua composição e o caráter de seu recrutamento, agregando todos que desejassem se organizar sindicalmente, independente da concepção política, não tinham um programa revolucionário acabado e, sendo assim, não poderiam substituir o partido.


            Mesmo os sindicatos mais poderosos, na visão do autor da Revolução Permanente, não abarcariam mais do que vinte ou vinte e cinco por cento da classe operária, predominando, ainda nesse grupo, as camadas mais qualificadas e mais bem pagas. Com isso a maioria mais oprimida do proletariado só era arrastada para a luta episodicamente nos períodos de auge do movimento operário. Tudo isso fazia com que Trotsky concluísse que os sindicatos não são um fim em si mesmos, são apenas meios que devem ser empregados na marcha em direção à revolução proletária [15].


            Ainda para esse autor, historicamente os sindicatos se formaram no período de surgimento e auge do capitalismo tendo por objetivo melhorar a situação material e cultural do proletariado, além de ampliar os seus direitos políticos. Na Inglaterra, por exemplo, ao longo de mais de um século de luta, muitos desses objetivos foram conquistados, o que deu aos sindicatos ingleses uma autoridade tremenda sobre os operários. No entanto, já na década de 1930 o revolucionário russo percebia que a decadência do capitalismo britânico, seguindo a mesma dinâmica do sistema capitalista mundial, havia minado as bases desse trabalho reformista dos sindicatos, pois o capitalismo só conseguia se manter rebaixando o nível de vida dos trabalhadores. Assim, os sindicatos se encontravam numa bifurcação: podem ou bem transformar-se em organizações revolucionárias ou converter-se em auxiliares do capital na crescente exploração dos operários [16]. A segunda hipótese parece ter sido a que se confirmou na quase totalidade dos casos.


            Ao separar a luta econômica, e meramente sindical, da luta política mais geral, a maioria dos sindicatos, ao longo do século XX no Brasil e no mundo, deixaram de cumprir um papel, que apesar de limitado, era e é imprescindível para a luta socialista. A partir da leitura do marxismo clássico, é tarefa dos sindicalistas revolucionários atuais fazer esse balanço e encaminhar ações que procurem pôr em xeque o sistema capitalista como um todo, sem se limitar a lutar meramente contra os seus efeitos, muito embora estes continuem sendo bastante nefastos.


NOTAS:
1. Giovanni Alves. Limites do sindicalismo – crítica da economia política. Bauru, Projeto editorial Práxis, 2003. pp. 331 e 340. 
2. Idem. p. 23.
3. F. Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Citado por Giovanni Alves. Op. Cit. p. 48.
4. Giovanni Alves. Op. Cit. pp. 231 e 293.
5. Karl Marx. Miséria da filosofia (na edição francesa). Citado por Giovanni Alves. Op. Cit. p. 126.
6. Leon Trotsky. Texto escrito em março de 1923, in: Escritos sobre sindicatos. S.P., Kairós Liv. e edit., 1978. p. 20.
7. Lênin. Texto escrito em 1899, in: Sobre os sindicatos. S.P., Liv. e Ed. Polis, 1979. p. 42.
8. Idem. p. 40.
9. Giovanni Alves. Op. Cit. p. 49.
10. Idem. p. 207.
11. Karl Marx. Salário, preço e lucro. S.P., Global Editora, 1988. pp. 85-86.
12. Lênin. Texto de junho de 1901, in: Op. Cit. p. 45.
13. Lênin. Texto de junho/julho de 1905, in: Op. Cit. p. 76.
14. Lênin. Que fazer? S.P., Hucitec, 1988. p. 24.
15. Leon Trotsky. Programa de Transição. 1ª edição, 1938. S/ ed. s/ data. pp. 13-15.
16. Leon Trotsky. Texto escrito em setembro de 1933, in: Escritos sobre sindicatos. Op. Cit. p. 79.