Mostrando postagens com marcador História do futebol. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História do futebol. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE 5 / 5)



Teones França (Historiador)

 
O “padrão-Fifa”: política + futebol = $$$$$$$

Vimos, assim, que política e futebol sempre andaram de mãos dadas e, ao contrário do que pensam os ingênuos, há muito mais coisas envolvidas numa partida de futebol do que entretenimento. Oitenta e quatro anos depois da disputa do primeiro Mundial, o campeonato de futebol aterrissa em terras brasileiras novamente, apresentando um cenário que demonstra muitas continuidades com o que era observado na década de 1930: o racismo ainda está presente em muitos estádios de futebol mundo afora, dando mostra de que esse esporte é um espelho que reflete valores contidos na sociedade. Não é de estranhar que o ideal nazista ainda encontre seguidores, como o jogador da seleção croata, Josep Simunic, suspenso pela Fifa por dez jogos sob a acusação de ter entoado cânticos hitleristas após a classificação de sua seleção para o mundial deste ano e, por isso, está fora da copa.
 

De microfone em punho e braço esquerdo erguido, após a classificação croata para a copa 2014 Simunic grita slogans nazistas: “pela Pátria!” e “preparados!”.

 
Da mesma maneira, quando ouvimos o técnico de nossa seleção, Luís Felipe Scolari, afirmar que seus comandados têm que entender que jogam por um país inteiro, chegamos à conclusão de que o ideal da “pátria de chuteiras” também segue tendo continuidade. A existência de leis estaduais que obrigam a execução do hino nacional antes de partidas de futebol indica o mesmo e, diferente do que dizem os que as defendem, o seu principal objetivo não é ensinar a letra à população – se assim o fosse o hino teria que ser executado antes da novela das nove, evento cotidianamente de maior audiência – e sim, aos nossos jogadores.

O que mudou bastante em comparação às primeiras copas foram os gastos para a sua realização. A copa do mundo do Brasil será a mais cara da história. Apenas em estádios deve-se gastar mais de dez bilhões de Reais, enquanto a Alemanha, em 2006, gastou a quarta parte desse valor. No total a gastança deverá atingir valor superior a trinta bilhões, sendo que mais de 90% desse montante terão saído dos cofres públicos. No entanto, se estes ficarão vazios, os bolsos de empreiteiras e da própria Fifa ficarão abarrotados de dólares. O legado da copa de 2014 beneficiará poucos privilegiados.


Para um reduzido grupo de pessoas (Fifa, donos de times, jogadores de ponta, TV’s, patrocinadores) o futebol é cada vez mais rentável, alimentado pela paixão de milhões de pessoas carentes

 É contra essa farra com o dinheiro público que manifestações públicas acontecem desde o ano passado no Brasil. O governo já escolheu sua estratégia: criminalizar os participantes desses atos como se estivessem cometendo um crime contra a pátria e não lutando a favor dela. A presidente, por seu turno, certamente torcerá pela vitória de nossa seleção para acalmar os manifestantes e associar a conquista à sua gestão, o que lhe facilitará a reeleição em outubro próximo. Para isso, conta com seus exércitos, dentro de campo – para conquistar a taça – e fora – para calar os manifestantes.

 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE 4 / 5)


Teones França (Historiador)

Na era da Globalização, o fim do “futebol-arte”
Os planos iniciais não previam o México como sede do mundial de 1986. A escolhida era a Colômbia, entretanto, no início da década de 1980 o país, assim como outros na América Latina, vivia um momento econômico bastante negativo o que levou o presidente Belisario Betancur a desistir da candidatura, declarando que “não há tempo para atender as extravagâncias da Fifa e de seus sócios”. Alguns tentaram convencer o governo brasileiro, ainda chefiado pelo General Figueiredo, a promover o evento, o que foi prontamente recusado sob a argumentação de que a situação vivida por nosso país exigia “irrestrita austeridade”. Diante disso, o México se prontificou, mesmo porque os estádios utilizados em 1970 ainda estavam em boas condições.
Muitos craques se despediram das copas nesse mundial. Foi o caso de Platini, Zico, Sócrates, Falcão, Rummenigge entre outros. O jogador do torneio foi Maradona, levando a Argentina ao bicampeonato e marcando, no confronto contra a Inglaterra nas quartas de final, o que é considerado por muitos o gol mais bonito da história das copas, driblando seis jogadores desde o meio de campo, além do goleiro, antes de marcar. Quanto ao Brasil, tínhamos uma seleção que se não possuía a qualidade da que havia disputado o mundial anterior, nem um craque em plena forma como o baixinho argentino, como mínimo se equivalia às outras maiores forças da competição.
E ainda contávamos com o talento de Zico. Porém, ele passou a maior parte dos jogos no banco de reservas já que vinha de uma cirurgia no joelho. Nosso selecionado foi eliminado pela França, nas quartas de final. O jogo estava empatado em 1X1 quando, no meio do segundo tempo, o lateral Branco foi derrubado pelo goleiro Bats após um passe magistral do ídolo rubro-negro. O normal seria Sócrates bater, mas este entregou a bola para Zico que chutou fraco e o francês defendeu. Na disputa de pênaltis o Brasil foi desclassificado.
Contudo, se no momento do pênalti no decorrer do jogo, Sócrates preferiu não assumir a sua posição de liderança, em outros momentos teve atitude distinta. No primeiro jogo, quando cometeram a gafe de executar o hino da independência ao invés do hino nacional brasileiro, ele não esperou o término da execução para retirar os seus companheiros de equipe da posição em que estavam perfilados. Contundente também foi a sua postura de aproveitar a audiência do evento para em todos os jogos entrar em campo com faixas na cabeça contendo frases contra a fome, as guerras, o racismo e o imperialismo. A Fifa, obviamente, não gostou de tal atitude e proibiu posteriormente esse tipo de conduta dos jogadores em seus campeonatos. Para aqueles que conheciam Sócrates essas atitudes não causaram estranhamento já que ele sempre procurou associar o futebol à política, mas sob uma ótica que acreditava ser benéfica aos setores menos favorecidos de nossa sociedade. Dizia que “o jogador de futebol nada mais é que um representante de seu povo”. A sua liderança na construção do que ficou conhecido como “democracia corintiana” em plena ditadura militar, no início da década de 1980, é um exemplo disso.



Sócrates, líder da democracia corintiana, e uma das faixas usadas na copa de 1986

Na Itália, em 1990, tivemos uma demonstração nítida da intersecção que há entre futebol e situação política mundial. No ano anterior o muro de Berlim, símbolo da divisão da Alemanha em duas – a Ocidental, capitalista e próxima aos Estados Unidos; e a Oriental, socialista e ligada à União Soviética –, foi derrubado e o processo de reunificação dos dois países estava em curso e iria se consolidar meses depois do fim do campeonato. Nesse cenário, a vitória alemã, derrotando a Argentina na final, foi celebrada em êxtase pela população que portava nos estádios cartazes com frases do tipo “Nós somos Copa do Mundo e alguém de novo”.



Beckembauer e a seleção vitoriosa em 1990 comemoram com o povo alemão

O mesmo processo que reunificou as Alemanhas – o fim do socialismo real e, consequentemente, da guerra fria – também fez com que essa copa fosse a última de países como União Soviética, Tchecoslováquia e Iugoslávia, que se fragmentaram em vários países e, com isso, novas seleções debutariam nas copas seguintes: República Tcheca, Eslováquia, Ucrânia, Rússia, Croácia, Sérvia, Bósnia e outras. O fim de um mundo dividido em dois e o início de um globo unificado, na chamada globalização, já surtia seus efeitos junto à nossa seleção: metade dos convocados por Lazaroni jogava no exterior, contra apenas dois em 1986. Num campeonato em que prevaleceu o baixo nível técnico e esquemas defensivos caímos nas oitavas de final, perdendo para a Argentina de Cannigia e Maradona, na derrocada que recebeu a conotação pejorativa de “Era Dunga”, “modelo de jogador”, de acordo com o técnico.
A qualidade do futebol também permaneceu em baixa nos Estados Unidos, em 1994, assim como a “Era Dunga” teve continuidade. No entanto, dessa vez ganhou um tom positivo, pois o próprio, ao lado de Bebeto e Romário, foram os principais jogadores da campanha que levou o Brasil ao tetracampeonato mundial. Numa prova de que o futebol-arte era coisa do passado, o cabeça-de-área foi o jogador que mais se destacou no meio de campo pouco criativo de nossa seleção.


Presidente em 1994, Itamar Franco não perdeu a oportunidade de recepcionar os campeões

Demonstrando que nem tudo – ou quase nada – é apenas esportivo numa copa, o zagueiro colombiano, Andrés Escobar, foi assassinado em seu país dias após a eliminação da seleção logo no início dessa competição. Uma das hipóteses que pode ter motivado o crime é que apostadores, ligados ao tráfico de drogas nesse país, teriam tido grandes prejuízos com a saída precoce da seleção que era vista inicialmente como uma das promessas do mundial.
Em 1998, na França, com Rivaldo no meio de campo e Ronaldo no ataque, a seleção brasileira apresentou um pouco mais de qualidade técnica do que nas duas copas anteriores e novamente chegou à final. Dessa vez, com duas diferenças, a adversária foi a anfitriã e o resultado foi uma derrota acachapante por 3X0. Uma convulsão sofrida por Ronaldo no dia do jogo final e o fato de mesmo assim ele ter ido a campo está até hoje mal explicado, o que para alguns seria o suficiente para concluir que a CBF teria feito um acordo para que o Brasil entregasse o jogo. Indiscutível, no entanto, é que a França possuía um bom time, com Zidane de maestro, e era mais forte física e tecnicamente que a nossa seleção. O elenco francês, composto em maioria por descendentes de árabes e africanos (de países que haviam sido colônias da França até meados do século passado), tinha apenas oito jogadores filhos de mães e pais franceses, demonstrando o caráter multirracial da sociedade desse país, o que ainda é motivo de conflitos sociais e atitudes racistas, acirrados pela diminuição do mercado de trabalho na França e em outros países europeus.


Africanos, em barcos, entram clandestinamente na França à procura de uma vida melhor

Quatro anos depois o destino reservou um desfecho mais feliz para o nosso futebol. Pela primeira vez a disputa ocorreu na Ásia e em dois países-sede: Coreia do Sul e Japão. Isso porque a Fifa optou por uma decisão política já que os dois eram concorrentes e há entre eles rusgas históricas decorrentes da invasão japonesa à Coreia durante a Segunda Guerra Mundial.
Com Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo no meio e Ronaldo no ataque o Brasil chegou à final e venceu os alemães por 2X0. Na cerimônia de entrega das premiações o capitão, Cafu, apareceu nas milhões de TV’s espalhadas pelo mundo que acompanhavam a final com uma frase escrita por ele em sua camisa: “100% Jardim Irene”. Com esse gesto, além de associar o humilde bairro paulistano em que nasceu a um momento de festa, levantou a autoestima da população brasileira mais carente. Ao chegarem ao Brasil os jogadores foram recepcionados em Brasília pelo presidente Fernando Henrique que lhes concedeu a Medalha da Ordem do Mérito Nacional, num claro intuito de, tal e qual o presidente Médice, associar a conquista futebolística ao seu governo num ano de eleição presidencial. Mas, nem a aproximação com os jogadores vitoriosos ajudou muito a José Serra, candidato do presidente, que perdeu as eleições para Lula meses depois.




Cafu ergue a taça em 2002, após escrever em sua camisa “100% Jardim Irene”




FHC, à la Bellini, repete a atitude de Médice e ao lado dos campeões de 2002 ergue a taça

Já dissemos que a vitória na copa de 1990 coroou de forma sublime a reunificação das duas Alemanhas e a derrubada do Muro de Berlim. Entretanto, isso não se comparou à celebração desse país e de sua população ao sediar a copa dezesseis anos depois. Finalmente, os alemães foram às ruas empunhando bandeiras com as cores nacionais, o que não pôde ocorrer em 1974 quando a Alemanha Ocidental foi sede da competição, mas o país ainda estava dividido em duas partes. O orgulho de ser alemão, que havia sido destruído junto com o país após a derrota de Hitler na Segunda Guerra e a divulgação das atrocidades cometidas por ele e pelos nazistas, foi resgatado nessa copa. Nem o fato de ter terminado a competição em terceiro lugar diminuiu esse orgulho, conforme acreditava o técnico da seleção, Klinsmann: “Nós não ganhamos a copa, mas ganhamos o país... éramos um país com uma história negativa... o mais importante foi devolver o orgulho de ser patriota ao povo alemão”. A copa foi vencida pelos italianos, que derrotaram os franceses na final nas cobranças de pênaltis. Franceses, que desclassificaram a nossa seleção nas quartas de final.
A copa finalmente chegou à África, o continente mais pobre do planeta, após oitenta anos. A África do Sul foi a sede do mundial de 2010 e fez questão de demonstrar ao mundo que o apartheid (regime em que apenas os brancos governavam e os negros eram relegados a guetos) era coisa do passado. Não foi subserviente a todas as ordens da Fifa, como a que proibia o uso das vuvuzelas (cornetas grandes) nos estádios, sob a alegação de que eram uma manifestação cultural do país.



Na África do sul, as vuvuzelas não se calaram ao “padrão-Fifa



Mandela, expressão maior da luta sul-africana contra o apartheid, que por muitos anos foi o motivo principal para o país ser impedido pela Fifa de participar de uma copa do mundo

A vencedora foi a Espanha e seu meio de campo, composto por Xavi e Iniesta, deu esperanças aos apreciadores de que o futebol-arte poderia estar de volta. Na final derrotou a Holanda, seleção que eliminou o Brasil nas quartas de final. Dunga, o nosso técnico, procurou incutir em seus comandados o estilo de jogo de força e raça, característico de sua “era”, mas exagerou na dose, criando proibições e regras, estabelecendo a relação entre ele, jogadores e jornalistas num patamar quase militar.


                Pondo fim à análise sobre futebol e política ao longo de oitenta e quatro anos de copas do mundo, refletiremos na quinta, e última, parte deste texto a respeito das continuidades e rupturas nessa relação às vésperas do campeonato em nosso país e das principais motivações que, desde o ano passado, levam milhares de pessoas às ruas no Brasil em protestos contra o “padrão-Fifa”.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE 3 / 5)

C. A. Torres, capitão do tri, e o presidente Médice

Teones França (Historiador)

As copas sob o domínio dos ditadores

Nas duas décadas seguintes enquanto muitos ditadores massacravam vidas e valores democráticos em vários países do mundo, inclusive no Brasil, o futebol vivia momentos de glória com uma estupenda diversidade de craques espalhados pela América do Sul e Europa.
Portugal e Inglaterra conseguiram montar bons times para a copa de 1966, ocorrida neste último país, a ponto de só terem conseguido repetir tal feito apenas recentemente. O primeiro apresentou ao mundo o craque da competição, Eusébio e, não à toa, eliminou os bicampeões ainda na primeira fase – numa melancólica despedida de Garrincha das copas –, terminando em terceiro lugar. A campeã foi a seleção anfitriã, de Bobby Charlton, que derrotou a Alemanha Ocidental na prorrogação no jogo final.
Quando a copa do mundo de 1970 teve início, milhares de pessoas já haviam morrido em consequência de uma guerra, que teve dentre os motivos para ser originada um confronto pelas eliminatórias desse campeonato. Conhecido como “guerra do futebol”, o conflito entre El Salvador e Honduras deixou como saldo 6 mil mortos e começou com os jogos eliminatórios para a copa entre esses dois países. Nos anos anteriores milhares de salvadorenhos atravessaram a fronteira de Honduras, sendo vistos como invasores pela população local, então vêm os jogos e com os ânimos já exaltados, na partida na capital hondurenha, até pedras foram jogadas no hotel da seleção salvadorenha; o troco veio no jogo da volta quando o hino de Honduras foi vaiado e um pano sujo foi hasteado no lugar da bandeira do país. Um mês depois, a guerra começou.
Essa copa foi a primeira transmitida ao vivo para todo o Brasil, algo que foi bem aproveitado pela ditadura militar brasileira como exemplo de desenvolvimento proporcionado pelo milagre econômico, em que o PIB do país crescia a dois dígitos, porém, graças à concentração de renda e ao aumento da dívida externa. Nossa seleção chegou ao tricampeonato com uma linha de frente formada por cinco jogadores que eram da posição do camisa 10 em seus times: Pelé, Rivelino, Jairzinho, Tostão e Gerson, provando que o craque prescinde ao esquema tático. Sendo a primeira seleção a se tornar tricampeã, conquistou de forma definitiva a taça Jules Rimet – que seria derretida treze anos depois.
Na estreia contra a Tchecoslováquia, vencemos, mas levamos o primeiro gol e na comemoração o atacante tcheco fez o sinal da cruz em protesto contra o governo ditatorial socialista que estava à frente de seu país. Seguiram-se mais cinco vitórias, sendo que a mais difícil foi o 1X0 contra a Inglaterra, jogo em que o goleiro Gordon Banks realizou a defesa considerada a mais difícil de todas as copas. Por aqui, enquanto o presidente Médice aproveitava a vitória no campo para exaltar o país e seu governo, o governador-interventor de São Paulo, Paulo Maluf, presenteou cada atleta com um fusca, pago com dinheiro público. Já a maioria da população, inebriada por mais uma façanha de nosso futebol, via os gols de nossos craques ao som de “noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção...”, desconhecendo que inimigos do regime militar eram mortos e/ou torturados naquele momento.


Pelé, Torres e Maluf


Quatro anos depois, a Alemanha sediou pela primeira vez uma copa, porém o clima era de muita apreensão em virtude dos acontecimentos ocorridos em meio à olimpíada que teve esse país como sede dois anos antes, quando atletas israelenses foram assassinados por grupos palestinos. Na verdade, o clima político era tenso mesmo antes de começar o torneio já que a União Soviética se recusou a enfrentar o Chile na repescagem das eliminatórias no Estádio Nacional de Santiago por este ter sido o palco de atrocidades cometidas pela ditadura de Pinochet. Por isso, os soviéticos perderam o jogo por W.O. e ficaram fora da copa. Durante o torneio, pela primeira vez em uma competição internacional, as Alemanhas, Oriental e Ocidental, se enfrentaram após a divisão do país em dois – um ligado aos Estados Unidos e o outro, à União Soviética – ao final da segunda guerra mundial.


Estádio Nacional de Santiago, palco de prisão e tortura na ditadura do General Pinochet

O Brasil apresentou um time de estilo bem diferente do de 1970, que ficou conhecido pelo esquema retranqueiro de seu treinador: Zagalo, novamente. Após uma pálida primeira fase, o Brasil chegou às semifinais e cruzou com a Holanda, saindo derrotada por 2X0. Esta, por sua vez, apresentou o seu Carrossel ou a Laranja Mecânica (menção ao filme de Stanley Kubrick e cor principal dessa seleção) num esquema em que os jogadores não guardavam posição fixa e revezavam-se entre defesa, meio de campo e ataque, capitaneado pelo craque daquele momento: Cruyff. Entretanto, na final contra os donos da casa, que contavam com craques de peso, como Breitner, Müller, Overath e Beckenbauer, perderam por 2X1. Repetia-se, assim, 1954.
Da mesma forma que o Brasil, a Argentina viveu alguns anos sob o domínio de ditadores militares. Quando a copa de 1978 ocorria nesse país quem estava no governo era o General Jorge Videla, momento em que – de acordo com levantamentos recentes – mais de dez mil pessoas eram mortas, torturadas ou desapareciam para sempre.
A seleção argentina, contudo, possuía um time de jogadores talentosos, como Mario Kempes, Ardilles, Passarela e outros, mas, suspeita-se, chegou à conquista do campeonato com a interferência direta dos ditadores através de suborno e manipulação de resultados. Assim como os militares brasileiros se apropriaram do tricampeonato mundial para camuflar as atrocidades cometidas pelo governo ditatorial, a conquista argentina levou uma multidão às ruas em comemoração e diminuiu os protestos dos oposicionistas. Na final derrotou os holandeses, sem Cruyff, pois este decidira por conta própria boicotar o torneio em protesto aos problemas políticos enfrentados pelos argentinos. Mesmo não tendo seguido Cruyff, o restante do time, ao receber a medalha de prata, virou de costas para Videla – morto em 2003, na prisão, condenado pelos crimes de sua ditadura, ao contrário de seus párias brasileiros.


Videla entrega taça a Passarella, capitão da seleção argentina em 1978


Para muitos, o Brasil é quem deveria ter jogado a final contra a Holanda. Com um time composto por Rivelino, Reinaldo, Nelinho, Dirceu, Zico, entre outros, chegaríamos à final se a Argentina não derrotasse o Peru por uma diferença de quatro gols. Sensação da copa até então, o Peru fez uma partida medíocre, perdeu de 6X0 e seu goleiro, Quiroga, argentino de nascimento, falhou em vários gols.


Manchete de jornal argentino afirmava, em 2012, que um ex-senador peruano denunciou que a goleada de 6X0 dos argentinos em 78 foi fruto de acordo entre as ditaduras dos dois países, aliadas na Operação Condor, criada pelas ditaduras da América do Sul para reprimir opositores

Quatro anos depois a Argentina se envolveria numa guerra contra um inimigo externo. Documentos descobertos recentemente indicam que Margaret Thatcher pensou em retirar as seleções britânicas (Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte) da copa da Espanha, em 1982, porque tinha receio de um possível confronto entre esses países e a Argentina já que um dia após o início do mundial a guerra das Malvinas terminara com a vitória dos ingleses sobre os sul-americanos. Não se sabia, inclusive, qual poderia ser a atitude dos hooligans (violentos torcedores ingleses), tão temidos naquele momento. No final das contas todas as três seleções britânicas participaram do evento e não enfrentaram os hermanos.
Apesar de campeã do mundo e de contar com o excepcional Maradona despontando para o futebol mundial, a Argentina cumpriu papel de coadjuvante numa copa em que duas outras seleções brilharam: a italiana, que se sagraria campeã, e a brasileira. Sob a batuta de Telê Santana nossa seleção reuniu um elenco bastante técnico, formando um conjunto (Leandro, Júnior, Falcão, Sócrates, Zico etc.) que, apesar de derrotado pela própria Itália nas quartas de final, ainda é visto como um dos maiores times de todos os tempos. A única exceção poderia ser o centroavante Serginho, mas não esqueçamos que o titular até meses antes do mundial era um dos melhores atacantes que nosso futebol já produziu: Reinaldo. A derrota de 3X2 para os italianos deu início à tese do futebol de resultados – é melhor jogar feio, mas ganhar – que afastará gradativamente o nosso futebol de sua tradição de associá-lo à arte. Ela também gerou um clima de luto país afora, pois nunca antes – e, talvez, nem depois – o futebol mobilizou tanto nosso povo a ponto de praticamente todas as ruas estarem coloridas de verde e amarelo, algo que até se repetiria dois anos depois, não por causa da copa do mundo, mas para exigir eleições diretas para presidente.

Menino-símbolo do luto brasileiro após a eliminação para a Itália em 1982


                Na 4ª e penúltima parte iremos analisar a relação entre futebol e política num cenário mundial bem distinto do que vimos aqui. O fim da guerra fria, o início da chamada globalização, a reunificação das Alemanhas serão processos que influenciarão todo o mundo e o futebol não ficará de fora. O futebol-arte chega ao fim enquanto adere à sociedade do espetáculo e as copas passam a adquirir o padrão-Fifa.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE 2 / 5 )





Teones França (Historiador)

Do trágico gol de Ghiggia ao epíteto de “país do futebol”

                A 2ª guerra mundial (1939-1945) gerou um interregno de doze anos entre o quarto e o quinto mundial. Os times atuais do Palmeiras-SP e do Cruzeiro-MG, que se denominavam Palestra Itália, tiveram que alterar seus nomes em virtude da menção ao país fascista. Diante de uma Europa destruída pelo conflito, a Fifa decidiu que a sede deveria novamente retornar à América do Sul e o Brasil foi o escolhido por ser o único candidato. A copa de 1950, pela 1ª vez, contou com a participação de uma seleção inglesa e ela foi derrotada pela seleção amadora dos Estados Unidos no jogo que é considerado a maior zebra da história das copas.

                No quadrangular decisivo, o Brasil de Zizinho, Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto e Barbosa chegou ao jogo final contra o Uruguai num Maracanã com cerca de 200 mil apoiadores – 10% da população carioca – precisando apenas de um empate para se sagrar campeão. Iniciou ganhando, mas viu Ghiggia fazer 2X1 aos 34 minutos da etapa final. Para os jogadores, que carregaram o estigma dessa derrota até a morte, o excesso de otimismo foi a principal causa do infortúnio brasileiro.


Gol do uruguaio Ghiggia calou o Maracanã em 1950

               
Na semana do confronto decisivo, vários políticos visitaram a seleção para tirar fotos com os atletas porque era época de eleição. No dia da partida um jornal circulou pela manhã com uma montagem da foto do time campeão. A comoção nacional oriunda dessa derrota pode ser explicada pelo fato do Brasil, país ainda agrário e subdesenvolvido, ter iniciado aquele jogo com a chance real de ser, ao menos no futebol, o melhor do mundo. Mas, ao final da partida, só restou ao povo aceitar cabisbaixo a máxima de Nelson Rodrigues: não nos tornávamos os melhores porque sofríamos do “complexo de vira-lata” com o qual “o brasileiro se colocava, voluntariamente, como inferior em face do resto do mundo”. Para os negros do time – como o goleiro Barbosa – o sofrimento foi ainda maior, pois foram os maiores responsabilizados pela derrota.


Barbosa, goleiro do Vasco, chora após a derrota para o Uruguai


    Quatro anos depois, na Suíça, nossa seleção caiu nas quartas de final para a Hungria, que, com Puskas à frente, é considerada por muitos como o maior time de todos os tempos. Após o fracasso de 1950 e as acusações de que a seleção jogara sem raça, a comissão técnica criou um clima de patriotismo exacerbado entre os jogadores a ponto de terem que decorar o hino nacional e beijar a nossa bandeira antes de entrar em campo. Já os húngaros só perderam na final para a Alemanha no que ficou conhecido como “milagre de Berna”. Os alemães, por sua vez, triunfavam poucos anos após a sua derrota na segunda guerra. O capitão do time, Fritz Walter, afirmou posteriormente: “o triunfo nos deu a sensação de que éramos de novo importantes”.

                Ao menos nos campos de futebol o nosso “complexo de vira-latas” começou a ser superado em 1958 já que o Brasil, com uma equipe formada por craques do quilate de Pelé, Garrincha, Nilton Santos e Didi, sagrou-se campeão mundial pela 1ª vez na Suécia. Dentre os times vencidos pelos brasileiros estava a temida União Soviética, país que, para espanto mundial, um ano antes havia enviado ao espaço o primeiro satélite artificial, o Sputnik, deslanchando a corrida espacial. Nos primórdios da guerra fria (disputa geopolítica entre Estados Unidos, capitalista, e União Soviética, socialista), especulava-se que os soviéticos apresentariam um futebol de laboratório, desenvolvido com métodos secretos de treinamento. Nada disso se viu e – o negro – Pelé, com apenas 17 anos, passeou nos campos suecos com seu vasto repertório de dribles, passes e gols, alforriando definitivamente os negros para a prática do futebol por aqui. Nossa população, vivendo o clima do otimismo propagandeado pelo governo de Juscelino Kubitschek, cantava em coro nas ruas a marchinha “A taça do mundo é nossa / Com brasileiro, não há quem possa...”.


Bellini, capitão em 1958, pioneiro no gesto de erguer a taça acima da cabeça



Tradicional uniforme da União Soviética, um dos times mais temido na aurora da guerra fria. Utilizado até a copa de 1986, por causa do fim da URSS na década seguinte, é atualmente uma das camisas da linha retro mais vendida. O CCCP, em português, quer dizer União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Em 1962 a disputa futebolística retornou à América Latina, justamente no ano mais tenso da guerra fria para a região, quando os americanos descobriram que os soviéticos instalavam bases para lançamento de mísseis em Cuba, o que deu início ao bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos aos cubanos. Sem querer saber de política mundial, a seleção brasileira chegou ao bicampeonato com um time em que constavam vários jogadores presentes na disputa anterior, como Garrincha, Vavá, Zagalo, Nilton Santos e Pelé. Este último, no entanto, machucou-se no segundo jogo e o anjo das pernas tortas chamou a responsabilidade para si e comandou a equipe. O mundo exaltava “o país do futebol”.


Garrincha, craque da copa de 62, e Pelé, craque da edição anterior


               
 Na próxima parte trataremos das copas ocorridas entre 1966 e 1982, período em que o mundo se encantou com o futebol-arte e se amedrontou com a guerra fria e os diversos tipos de ditaduras.




domingo, 11 de maio de 2014

A PÁTRIA DE CHUTEIRAS! COPA DO MUNDO DE FUTEBOL E POLÍTICA: UMA RELAÇÃO HISTÓRICA (PARTE I / 5)

Teones França, historiador e professor da rede estadual RJ

Mito marcante de nossa cultura, a imagem do Brasil como um país de povo cordial e acolhedor, tendo no futebol o elo unificador de uma nação em harmonia tem sido questionada por manifestações de rua que, apesar de minoritárias até o momento, entoam gritos do tipo: “não vai ter copa!” ou “da copa eu abro mão. Quero mais dinheiro para a saúde e a educação!”. Questionando os altos gastos públicos com o evento e as exigências do “padrão-Fifa” em detrimento dos investimentos sociais, elas indicam que as disputas nesta competição que começa em junho extrapolarão as quatro linhas do campo e apontam para uma relação, nem sempre amistosa, entre futebol e política. Isso não é algo novo e exclusivo do nosso país. Ou melhor, essa relação – entre futebol e política – esteve presente em praticamente todas as dezenove copas realizadas até 2010. Através de um breve resumo sobre a participação brasileira em todos esses campeonatos, dividido em cinco partes, aprofundaremos essa discussão.

Nossa seleção antes das copas 
O primeiro jogo aceito de fato como sendo de uma seleção brasileira ocorreu em 1914. Isso porque nesse confronto amistoso contra o time inglês do Exeter City apenas jogadores brasileiros vestiram a camisa branca – a cor amarela só foi adotada em 1952 – do combinado formado por atletas do eixo RJ-SP e que venceu os ingleses por 2X0. 

1ª camisa utilizada pela seleção com a sigla da Federação Brasileira de Sports (depois CBD, atual CBF).

Camisa das 1as copas, com o símbolo da CBD

Após essa data, nossa seleção conquistou dois sul-americanos, em 1919 e 1922, ambos no Rio de Janeiro, tendo como principal craque nesses títulos o jogador paulistano Arthur Friedenreich. Mulato, filho de alemão, ele tinha como hábito passar muito tempo antes dos jogos alisando o cabelo na tentativa de diminuir os olhares enviesados do público, pois tinha certeza de que só lhe era permitido jogar em grandes clubes de elite e na seleção por ser descendente de europeu. 

Friedenreich

O ritual do atleta era compreensível porque naquele momento no Brasil negros não eram aceitos nos times considerados grandes e muito menos na seleção que representaria o país. Uma das exceções foi o time do Vasco, campeão carioca de 1923, fato que levou os vascaínos a sofrerem punições esportivas. Essa situação começou a mudar com a profissionalização no início dos anos 1930, que permitiu a proliferação de negros em nosso futebol e a caracterização definitiva de nosso estilo de jogo como fruto do malabarismo dos craques de ébano. Tal mudança fortaleceu mais um mito de nossa cultura: a de que vivemos numa democracia racial.

As copas do fascismo nos anos 1930
A 1ª guerra mundial e a destruição territorial e econômica da Europa que ela ocasionou atrasaram por alguns anos a disputa de um campeonato de futebol de caráter intercontinental. As Olimpíadas seguiram acontecendo, mas estas já ocorriam desde 1896 e, além do mais, envolviam vários esportes. Havia o temor, portanto, de que uma competição internacional de um único esporte, o futebol, fracassasse, o que impediria a sua continuidade.

Em 1930, a Fifa decidiu que havia chegado o momento, porém a Inglaterra – país que estabeleceu as regras do futebol moderno – achou por bem ficar de fora por discordar da tolerância da entidade esportiva com o futebol amador praticado na maioria dos países.

Benito Mussolini logo se prontificou para que a Itália fosse a sede da 1ª copa, com a intenção de que o evento servisse de propaganda à ditadura fascista, comandada por ele desde 1922. O Uruguai, contudo, propôs bancar todas as despesas de viagem e alimentação dos participantes e foi escolhido como sede. Em represália, a Itália boicotou o mundial, que teve poucos participantes – apenas 14 – já que muitos desistiram em função da crise econômica mundial que chegara ao ápice no ano anterior.

O Brasil participou sem os jogadores de São Paulo em função da briga entre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e os paulistas. Com isso, craques como Friedenreich ficaram de fora e a nossa seleção foi eliminada na 1ª fase. O Uruguai, embalado pela conquista das duas últimas Olimpíadas – por isso, conhecido como Celeste Olímpica – sagrou-se vencedor.

Quatro anos depois, finalmente conseguindo sediar o mundial, o governo italiano sabia que esse era o momento para “mostrar ao universo o ideal fascista do esporte”, como afirmou na ocasião um dos generais de Mussolini, e a Itália sagrou-se campeã sem adversários à altura, mesmo porque o campeão anterior deu o troco e boicotou o torneio. O Brasil novamente enfrentou problemas, pois os times se recusaram a ceder seus jogadores para a CBD porque esta ainda defendia o amadorismo. A CBD acabou tendo que ceder e decidiu pagar salários aos convocados, porém, mesmo contando com craques do calibre do negro Leônidas da Silva, a seleção brasileira chegou tarde à Europa e, sem tempo para descanso, foi eliminada logo no primeiro jogo ao ser derrotada pela Espanha.

Jogadores italianos fazem a saudação fascista a Mussolini

Em 1938, num mundo já sentindo as primeiras turbulências da segunda guerra mundial, a Itália novamente sagrou-se campeã e seu capitão, Giuseppe Meazza, ao receber a taça, ergueu o braço e fez a saudação fascista em homenagem a Mussolini. A Alemanha nazista de Hitler, por sua vez, não conseguiu seguir o exemplo de seus parceiros italianos. Tentou sediar o evento para mostrar ao mundo a supremacia da raça ariana alemã – assim como fez dois anos antes nas olimpíadas de Berlim –, mas Jules Rimet, presidente da Fifa, logrou êxito em levar a competição para o seu país, a França. 
No Brasil, com a difusão do rádio, muitos conseguiram torcer por nossa seleção, mesmo que ao som de alto-falantes em praças públicas, já que ter rádio em casa não era para qualquer um. O governo ditatorial de Getúlio Vargas tentou tirar proveito da popularidade do selecionado brasileiro. O Brasil terminou a disputa em terceiro lugar, tendo perdido por 2X1 na semifinal para a campeã da competição e Leônidas da Silva foi o artilheiro, com sete gols marcados.

Leônidas em sua jogada tradicional, da qual foi precursor: a bicicleta.

O início da 2ª guerra paralisa o mundo e as competições esportivas. A próxima copa só seria realizada em 1950 e a população da sede escolhida, o Brasil, sofreria um dos maiores revezes da história do nosso futebol. Em contrapartida, se o início da década foi triste, ao seu final seríamos reconhecidos como o verdadeiro país do futebol. É esse o período analisado na próxima parte.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

FUTEBOL E CAPITALISMO: TUDO A VER!



Teones França, historiador, professor e torcedor fanático do Flamengo

            Nos últimos dias temos visto muitos cronistas esportivos, que se esforçam para se apresentarem com um viés politicamente correto, criticarem a exorbitância dos preços dos ingressos para o jogo entre Flamengo e Atlético PR no Maracanã, pela final de um campeonato nacional, que variam de 250 a 800 Reais. Valor maior do que as entradas para alguns jogos da Copa do Mundo do próximo ano.
            Além de questionarem a diretoria do clube pela ganância do retorno financeiro estupendo em um único jogo esses jornalistas defendem a tese de que o Flamengo é um time de massa e, portanto, tem mais possibilidade de sagrar-se campeão caso possa contar com o grito da favela,  o que se tornará impossível pois a maior parte dos seus torcedores - assim como a quase totalidade da população brasileira - não pode se dar ao luxo de gastar essa quantia numa noite apenas.
            Certamente que trata-se de um preço astronômico para se assistir a um espetáculo de gosto duvidoso e é bem provável que a ausência da massa deixe nesse jogo o rubro-negro carioca órfão de seu verdadeiro torcedor. Contudo, apesar da postura desses dirigentes ser bastante criticável, será que ela é contraditória e absurda numa sociedade capitalista?
            É claro que não. E isso porque no futebol, assim como em qualquer aspecto na nossa sociedade, a regra determinante é a que esteja a serviço da lei da oferta e da procura que, por si, justifica a principal satisfação do capital: o lucro.
            Desde que se tornou um esporte de massa no Brasil, a partir da década de 1930, o futebol caminha lado a lado com a dinâmica de nossa economia capitalista. Como esta veio ao longo dos anos num crescente desenvolvimento, o esporte bretão foi cada vez mais se aliando às regras do mercado. Os cartolas dos times mais populares foram percebendo a mina de dinheiro que tinham nas mãos, fazendo com que a ingenuidade ficasse de uma vez por toda no museu do futebol, como característica de seus anos iniciais. E assim caminhamos até a década de 1990 na qual enquanto um restrito grupo de jogadores tornara-se supervalorizado financeiramente o povão progressivamente tornara-se torcedor de Televisão.
            A tendência é que a cada ano observemos um fenômeno, como o galês Garath Bale, ser vendido por quase cem milhões de euros para um Real Madrid da vida enquanto que ao torcedor brasileiro mais carente seja destinado apenas os jogos de menor importância ou aqueles em que seu time necessite de seu grito nas arquibancadas para ajudá-lo a evitar uma iminente queda à segunda divisão.
            Como explicar (aceitar) que um ser humano valha cem milhões de euros? Ora, um sujeito como esses deixou de ser humano e se tornou uma máquina a qual agrega valor a si própria. Ou seja, o projeto é que cem milhões hoje multiplique-se em outras centenas de milhões amanhã. Sem dúvida que também há os casos de lavagem de dinheiro - também típicos do capitalismo - como os times comprados pelos mafiosos russos ou pelos xeiques árabes. Sendo assim, concluímos que esses times milionários não são montados por paixões clubísticas mas sim como investimentos que deverão render valor bem superior a partir da sua realização. Em resumo, c se tornando c'.
            A ida do povão para casa ver seu time pela TV é algo que avança em nosso país a partir da década de 1990 porque é o momento em que as emissoras, especialmente a Rede Globo, se lançam com mais avidez nesse mercado por compreenderem que o retorno da audiência e, logo, do lucro é líquido e certo. Desde então vimos surgir um novo - e inusitado - horário de futebol: as quartas-feiras depois da novela das nove horas! Estádios cheios nesse horário somente em jogos de grande apelo ou naqueles em que é feito preço promocional. E é pela mesma razão que Corinthians e Flamengo aparecem dia sim, outro também na telinha da Globo.
            Ora, diante disso, quando cronistas esportivos vêm defender a redução do preço do ingresso (cinquenta Reais é barato?) para que o grito da favela seja ouvido nos estádios só podemos considerar hipocrisia ou ingenuidade. É a grana que move esse esporte há bastante tempo aqui e no mundo e isso é algo extremamente compreensível tendo em vista estarmos no contexto de uma sociedade capitalista. (De acordo com a sessão nostálgica de um jornal de grande circulação, há cinquenta anos Garrincha buscava acertar sua ida para o Milan, da Itália, pois precisava "ganhar dinheiro").
            É exemplar que tal debate esteja acontecendo justamente em torno do Flamengo, time em que no início deste ano um grupo de empresários - "bem-sucedidos" em seus ramos, de acordo com a imprensa - assumiu a diretoria do clube e foram saudados de forma festiva por praticamente todos os cronistas esportivos do país pois, segundo estes, a solução para a administração caótica do rubro-negro estava por vir já que esses ótimos empreendedores saberiam muito bem como dirigir o clube da massa. Se há contradição no caso atual dos ingressos inflacionados não é dos que assumiram a diretoria flamenguista, mas sim dos cronistas porque a lógica que está sendo empregada no aumento dos preços é a lógica do mercado, a mesma que é posta em prática, de forma implacável, nas diversas empresas pelo mundo afora.
            Queremos crer que tenha sido apenas ingenuidade quando a maioria dos jornalistas aplaudiram de forma efusiva a posse desses empresários na diretoria do clube carioca como se fossem empreendedores altruístas, melhor dizendo, empresários que vieram fazer o bem para o clube do qual são torcedores. Uma coisa é certa, no mundo do capital não cabe espaço para altruístas, pois a lógica capitalista é perversa e, portanto, contrária a altruísmos.
            Aos que defendem que os bons tempos do futebol brasileiro eram aqueles em que o dinheiro não era determinante, fica o alerta: esse saudosismo é algo que só pode ser imputado ao nosso futebol nas primeiras décadas do século passado e, apesar disso, aquele era um período em que esse esporte nos times de ponta era praticado majoritariamente por setores da elite branca. Quando o futebol tornou-se de massa virou alvo da sanha do capital, assim como tudo e qualquer coisa que possa ser precificável.