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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O marxismo clássico e os limites do sindicalismo



Teones França (Historiador e professor da Rede Estadual RJ)

            Desde as últimas décadas do século XX, é comum escutarmos que o sindicalismo brasileiro vive uma crise que teria sido ocasionada por vários aspectos, como os efeitos das recentes transformações produtivas e do fim do chamado socialismo real sobre o mundo do trabalho e o movimento sindical. A grande maioria daqueles que analisam esse processo não incluem como um dos fatores que impulsionam essa crise os limites inerentes à própria ação sindical e a dificuldade que esta tem - e sempre teve - em associar as lutas econômicas (sindicais) às lutas políticas mais gerais. Nesse caso, um retorno às análises do marxismo clássico pode ser muito útil.


            Este artigo tem por objetivo realizar esta ida ao passado e está dividido em duas partes, ambas com o intuito de destacar considerações de Marx, Engels, Lênin e Trotsky sobre a importância do movimento sindical e os limites do sindicalismo.


            Desde já, é importante apontar que os dois primeiros tiveram contato com um tipo de sindicalismo diferente daquele que Lênin e Trotsky conheceram. Marx e Engels fizeram parte de um período histórico em que o movimento sindical ainda não tinha se tornado de massa, onde a forma predominante de sindicalismo era a de ofício, já que, apenas durante as últimas décadas do século XIX, os sindicatos difundiram-se como expressão organizada e de massa do movimento operário. Entretanto, como destaca Alves, as afirmações de Marx a respeito do sindicalismo, em especial sobre os limites deste, devem ser generalizadas e não somente associadas a um caso particular, como o sindicalismo de ofício, por exemplo[1].


A importância do movimento sindical.
            Os fundamentos históricos da concepção de Karl Marx e dos marxistas em geral sobre sindicatos – e seus limites foram postos na obra do jovem Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, escrita entre 1844 e 1845 [2]. Nesse trabalho, verifica-se que, ao atestar que a concorrência não existe apenas entre os capitalistas, mas também entre os próprios trabalhadores, Engels afirmava que os sindicatos seriam os primeiros esforços dos trabalhadores para suprimir essa concorrência entre si e os via como um instrumento importante para conter a ânsia dos capitalistas:


“Se o industrial não contasse com uma oposição concentrada e maciça da parte dos seus operários, baixaria gradualmente, cada vez mais, os salários, para aumentar o seu lucro; a luta que tem de manter contra os seus concorrentes, os outros industriais, obriga-lo-ia a isso e em breve o salário atingiria o seu nível mínimo” [3].


            Os sindicatos serviriam, então, como anteparo aos ataques dos industriais que não hesitariam, caso não encontrassem resistência, em vilipendiar cada vez mais a condição de vida dos trabalhadores para obter melhor situação na concorrência com outros capitalistas. Nessa lógica, a principal expressão da indignação dos proletários contra a situação imposta pelos patrões seriam as greves que, apesar de não terem muito sucesso isoladamente, agiriam como uma escola de guerra dos operários, momento em que esses se preparariam para o grande combate, ou seja, para a destruição da sociedade capitalista.


            As primeiras considerações de Marx sobre os sindicatos encontram-se na Miséria da filosofia, texto em que ele procura demonstrar a falsidade do pensamento de Proudhon, que afirmava serem inúteis os sindicatos e as greves por melhores salários, pois o seu êxito traria como conseqüência a inflação.


            Para Marx, a luta principal a ser protagonizada pela classe operária na sociedade capitalista seria a revolução social, a partir da qual estaria colocada a possibilidade de se alcançar uma sociedade sem exploradores e explorados. Nesse sentido, a luta sindical teria a capacidade de dar uma lição moral aos operários, ensiná-los a agir coletivamente, de forma organizada, conscientes de seu poder enquanto classe que produz a riqueza social. Percebe-se que a visão da luta sindical como escola, presente em Engels, também se encontrava em Marx, que entendia que por meio dessa luta os trabalhadores poderiam avançar em sua consciência de classe e chegar a constituir um partido político próprio da classe operária [4].


            O papel que cabia aos sindicatos, de acordo com o pensador alemão, não era então de pouca importância. Eles serviriam para constituir os operários em classe, organizando-os, educando-os, para a tarefa maior, que seria a revolução social. No entanto, esse movimento político associado à revolução e que Marx considerava de maior importância não poderia ser desvinculado totalmente do movimento social, econômico, pois é a própria luta econômica, sindical, que transforma o proletariado em classe para si.


“As condições econômicas, inicialmente, transformaram a massa do país [se refere à Inglaterra] em trabalhadores [travailleurs]. A dominação do capital criou para essa massa uma situação comum, interesses comuns. Essa massa, pois, é já, ante o capital, uma classe (...) mas ainda não o é para si mesma (...). Na luta que assinalamos algumas fases, essa massa se reúne, se constitui em classe para si mesma (...). Os interesses que defende se tornam interesses de classe. Mas a luta entre classes é uma luta política” [5].


            A luta sindical possibilita que a classe trabalhadora deixe de ser meramente classe em si e se transforme em classe para si na luta contra o capital e os sindicatos. Por sua vez, teria o mérito de agrupar essa massa, fazendo-a mais coesa e, logo, mais forte no embate da luta de classes.


            Tanto Lênin quanto Trotsky seguiam a análise de Marx e Engels e enfatizavam o aspecto educativo dos sindicatos para a classe operária. Para o segundo, os sindicatos, assim como o partido revolucionário, eram importantes para que o proletariado compreendesse a sua missão histórica, ou seja, ser o sujeito social da revolução social – “se o proletariado, como classe, fosse capaz de compreender imediatamente sua tarefa histórica, não seriam necessários nem o partido nem os sindicatos. A revolução teria nascido, simultaneamente, com o proletariado” [6].


            Lênin trazia à tona a definição de Engels a respeito das greves, escola de guerra, mas alertava que elas ainda não seriam a própria guerra, apenas um dos meios da luta operária por sua emancipação [7]. O revolucionário russo fazia uma bela caracterização dos efeitos devastadores de uma greve sobre a sociedade capitalista e mesmo sobre os próprios trabalhadores:


“Toda greve acarreta ao operário grande número de privações, além disso são terríveis que só podem comparar com as calamidades da guerra (...) E apesar de todas essas calamidades, os operários desprezam os que se afastam de seus companheiros e entram em conchavo com o patrão. (...) Amiúde, basta que se declare em greve uma fábrica para que imediatamente comece uma série de greves em muitas outras fábricas. Como é grande a influência moral das greves, como é contagiante a influência que exerce nos operários ver seus companheiros que, embora temporariamente, se transformam de escravos em pessoas com os mesmos direitos dos ricos! Toda greve infunde vigorosamente nos operários a idéia do socialismo: a idéia da luta de toda a classe operária por sua emancipação do jugo do capital” [8].


            Assim, temos que a luta sindical, apesar de limitada, cumpre um papel preponderante no avanço das consciências em direção ao socialismo e à solidariedade de classe. Devemos reconhecer que é impossível observar essas palavras de Lênin e não nos remetermos às greves de fins dos anos setenta no ABC paulista e toda a sua influência país afora, assim como os estragos gerados para a classe dominante brasileira naquele momento.


Limites do sindicalismo.
            Apesar de concordarem sobre a importância dos sindicatos, todos os quatro autores analisados também concordam que a luta sindical tem limites e que não se pode separar a luta econômica da luta política mais geral. Engels, em seu trabalho supracitado, apontava para a pouca eficácia das greves por duas razões em especial. A primeira, pela quebra de solidariedade entre os operários, ocasionada pelos chamados fura-greves, promovida pela concorrência entre eles próprios; e a segunda, pela impotência das trade unions inglesas diante das crises cíclicas da economia capitalista, que geravam diminuição de salários, fechamento de fábricas, greves mais curtas até mesmo em função do esgotamento mais rápido dos fundos sindicais. A prática sindicalista se submeteria totalmente, segundo essa visão, ao movimento do capital.


            As lutas dos sindicatos eram consideradas por Engels como lutas meramente defensivas, em geral lutas locais, de caráter profissional, sem um caráter político propriamente dito, que não mudariam a condição geral da classe proletária, mas apenas de operários de algumas fábricas [9]. Bem diferente para o autor eram as lutas associadas ao movimento cartista, pois esse sim era um movimento político que buscava representar os interesses de toda a classe trabalhadora.


            Os limites do sindicalismo para Marx seguiam uma lógica muito próxima a de Engels. Para o primeiro esses limites estariam postos pela sua natureza essencialmente defensiva, isto é, a luta pela elevação dos salários (ou contra a sua redução) ocorre apenas como decorrência de modificações anteriores postas pelo movimento do capital [10].


            Em Salário, preço e lucro - onde trava uma polêmica com o owenista John Weston, muito semelhante à que havia travado com Proudhon - Marx expõe de forma mais nítida as limitações da luta meramente econômica desenvolvida pelos sindicatos na sociedade capitalista:


“Os operários não devem superestimar o resultado final dessa luta [sindical] quotidiana. Não podem esquecer que lutam contra os efeitos e não contra as causas desses efeitos, que o que fazem é refrear o movimento descendente, mas não alterar o seu rumo; que aplicam paliativos e não a cura da doença (...) Em vez da palavra de ordem conservadora 'um salário justo por um dia de trabalho justo'’ devem inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: abolição do salariado’”.


E, em outra passagem:


“Os sindicatos atuam com utilidade como centros de resistência às usurpações do capital. Deixam em parte de atingir o seu objetivo quando utilizam a sua força de forma pouco inteligente. No entanto, deixam inteiramente de o atingir, quando se limitam a uma guerra de escaramuças, contra os efeitos do regime existentes, em vez de trabalharem, ao mesmo tempo, para a transformação e servirem-se da sua força organizada como de uma alavanca para a emancipação definitiva da classe trabalhadora, isto é, para a abolição definitiva do sistema de trabalho assalariado” [11].


            As conquistas sindicais não podem iludir a classe trabalhadora a ponto desta minimizar o fato de que não houve mudanças no rumo do sistema de trabalho assalariado e que em pouco tempo essas conquistas já não serão percebidas e novas lutas deverão acontecer para buscar se obter as mesmas vitórias. A importância das organizações sindicais era destacada por Marx, como já salientamos, por impedir o avanço devastador da sanha do capital, porém, enquanto continuassem a lutar somente contra os efeitos do sistema e não efetivamente contra as suas causas, estariam caminhando em círculo e se omitiriam de apresentar uma contribuição mais relevante para a superação do trabalho assalariado.


            Para enfrentar o capital, Marx considerava que os operários deveriam exercer uma ação política geral, fazendo uma pressão constante de fora do âmbito da relação meramente salarial, até porque na luta puramente econômica entre capital e trabalho, o primeiro tende a ser muito mais forte.


            Em um mesmo sentido, Lênin enfatizava que a luta econômica não deveria ser a preocupação exclusiva do movimento operário. Para ele, era equivocado supervalorizar greves vitoriosas porque com as associações profissionais (...) dos operários e com as greves consegue-se apenas, no melhor dos casos, alcançar condições um pouco mais vantajosas para a venda da mercadoria chamada força de trabalho. Essas associações e as greves não podiam ajudar quando a força de trabalho não fosse procurada em virtude da crise econômica, não podiam modificar as condições que convertiam a força de trabalho numa mercadoria e que condenavam as massas trabalhadoras às mais duras privações e desemprego. O que teria o poder de mudar essa situação negativa para o proletariado, na sua visão, era a luta revolucionária contra todo o regime social e político atual [12].


            Para o principal líder da revolução russa, aquilo que os revolucionários afirmavam para a classe operária deveria ser exatamente o oposto do que dizia a burguesia. Enquanto esta tentava iludir o proletariado para que ele centralizasse a sua atenção principal nos sindicatos, os revolucionários preocupavam-se em alertar o proletariado - classe mais avançada e a única revolucionária até as últimas conseqüências - de que não deveria se restringir aos limites econômico-salariais da luta de classes puramente, sobretudo ao aspecto do movimento sindical, mas, pelo contrário, tratar de ampliar os limites e o conteúdo da sua luta de classe até abranger nesses limites não só todas as tarefas da atual revolução democrático-popular russa, como também as tarefas da revolução socialista que há de segui-la [13].


            Nesse sentido, acreditava que a consciência social-democrata, que abrangeria a necessidade da revolução socialista como uma tarefa maior e mais importante do que a luta sindical, só poderia chegar até os operários a partir de fora, ou seja, a partir da influência do partido revolucionário. Isso era corroborado, de acordo com Lênin, pela história de todos os países até então, que demonstrava que pelas próprias forças, a classe operária não poderia chegar senão à consciência sindical, isto é, à convicção de que é preciso unir-se em sindicatos, conduzir a luta contra os patrões, exigir do governo essas ou aquelas leis necessárias aos operários etc. [14].


            Considerando também que o sindicato tem a sua importância, mas, devido às limitações da luta sindical, não passava de um coadjuvante na busca pela superação do trabalho assalariado, na qual o partido revolucionário exerceria o papel principal, Trotsky entendia que as associações sindicais, por seus objetivos, sua composição e o caráter de seu recrutamento, agregando todos que desejassem se organizar sindicalmente, independente da concepção política, não tinham um programa revolucionário acabado e, sendo assim, não poderiam substituir o partido.


            Mesmo os sindicatos mais poderosos, na visão do autor da Revolução Permanente, não abarcariam mais do que vinte ou vinte e cinco por cento da classe operária, predominando, ainda nesse grupo, as camadas mais qualificadas e mais bem pagas. Com isso a maioria mais oprimida do proletariado só era arrastada para a luta episodicamente nos períodos de auge do movimento operário. Tudo isso fazia com que Trotsky concluísse que os sindicatos não são um fim em si mesmos, são apenas meios que devem ser empregados na marcha em direção à revolução proletária [15].


            Ainda para esse autor, historicamente os sindicatos se formaram no período de surgimento e auge do capitalismo tendo por objetivo melhorar a situação material e cultural do proletariado, além de ampliar os seus direitos políticos. Na Inglaterra, por exemplo, ao longo de mais de um século de luta, muitos desses objetivos foram conquistados, o que deu aos sindicatos ingleses uma autoridade tremenda sobre os operários. No entanto, já na década de 1930 o revolucionário russo percebia que a decadência do capitalismo britânico, seguindo a mesma dinâmica do sistema capitalista mundial, havia minado as bases desse trabalho reformista dos sindicatos, pois o capitalismo só conseguia se manter rebaixando o nível de vida dos trabalhadores. Assim, os sindicatos se encontravam numa bifurcação: podem ou bem transformar-se em organizações revolucionárias ou converter-se em auxiliares do capital na crescente exploração dos operários [16]. A segunda hipótese parece ter sido a que se confirmou na quase totalidade dos casos.


            Ao separar a luta econômica, e meramente sindical, da luta política mais geral, a maioria dos sindicatos, ao longo do século XX no Brasil e no mundo, deixaram de cumprir um papel, que apesar de limitado, era e é imprescindível para a luta socialista. A partir da leitura do marxismo clássico, é tarefa dos sindicalistas revolucionários atuais fazer esse balanço e encaminhar ações que procurem pôr em xeque o sistema capitalista como um todo, sem se limitar a lutar meramente contra os seus efeitos, muito embora estes continuem sendo bastante nefastos.


NOTAS:
1. Giovanni Alves. Limites do sindicalismo – crítica da economia política. Bauru, Projeto editorial Práxis, 2003. pp. 331 e 340. 
2. Idem. p. 23.
3. F. Engels. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Citado por Giovanni Alves. Op. Cit. p. 48.
4. Giovanni Alves. Op. Cit. pp. 231 e 293.
5. Karl Marx. Miséria da filosofia (na edição francesa). Citado por Giovanni Alves. Op. Cit. p. 126.
6. Leon Trotsky. Texto escrito em março de 1923, in: Escritos sobre sindicatos. S.P., Kairós Liv. e edit., 1978. p. 20.
7. Lênin. Texto escrito em 1899, in: Sobre os sindicatos. S.P., Liv. e Ed. Polis, 1979. p. 42.
8. Idem. p. 40.
9. Giovanni Alves. Op. Cit. p. 49.
10. Idem. p. 207.
11. Karl Marx. Salário, preço e lucro. S.P., Global Editora, 1988. pp. 85-86.
12. Lênin. Texto de junho de 1901, in: Op. Cit. p. 45.
13. Lênin. Texto de junho/julho de 1905, in: Op. Cit. p. 76.
14. Lênin. Que fazer? S.P., Hucitec, 1988. p. 24.
15. Leon Trotsky. Programa de Transição. 1ª edição, 1938. S/ ed. s/ data. pp. 13-15.
16. Leon Trotsky. Texto escrito em setembro de 1933, in: Escritos sobre sindicatos. Op. Cit. p. 79.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Nos 30 anos de vida da CUT por onde andam seus ex-presidentes e o ímpeto inicial da central?

                                                  Teones França , historiador e professor da rede estadual do RJ 

         Fundada em agosto de 1983, como uma culminância das lutas sindicais iniciadas pelos metalúrgicos do ABC paulista em fins dos anos 1970, a Central Única dos Trabalhadores escreveu uma importante página na história do movimento sindical brasileiro, especialmente na década de oitenta, quando protagonizou diversas mobilizações contra o Estado ditatorial, já em seu momento derradeiro, e contra os ataques burgueses aos trabalhadores, ataques que não cessaram com o fim do regime militar.

 Foi justamente naquela década que surgiu – apesar de ter ficado por lá mesmo – o que talvez tenha sido a sua maior contribuição: ser um ponto de referência para os trabalhadores do Brasil, indicando-lhes que muitos inimigos da sua classe social compunham a unidade contra os militares e que, portanto, o fim desse regime significara apenas o começo das jornadas de luta que ainda estavam por vir. Infelizmente, esse caráter classista da central se perdeu ao longo dos anos noventa.

   Apenas seis homens ocuparam até o momento o cargo de presidente da CUT em seus 30 anos de vida. Muitos não sabem, mas a principal expressão do nosso sindicalismo, Luis Inácio Lula da Silva, que tem sua trajetória de militância se confundindo com a da própria CUT, nunca presidiu a central, apesar de em dados momentos ter agido como sua eminência parda.
Lula, sentado ao chão, come entre os participantes do Congresso que fundou a CUT

Componentes da primeira Executiva Nacional da CUT. Entre eles : Jair Meneguelli, 
Paulo Paim (atual senador /PT) e Delúbio Soares (um dos mensaleiros).
Meneguelli, à esquerda, discursa no Congresso de fundação da central.

Vejamos quem são os seis.
 Jair Meneguelli – Metalúrgico do ABC, primeiro presidente da CUT, central da qual esteve à frente entre 1983 e 1994, tendo sido reeleito em duas ocasiões. Atualmente é presidente do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi).

Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho – Metalúrgico do ABC. Presidiu a CUT entre 1994 e 2000, tendo sido reeleito uma vez. Hoje é deputado Federal pelo PT.

João Antonio Felício – Professor, foi presidente dessa central entre 2000 e 2003. Atualmente é Secretário de Relações Internacionais da CUT. Tenta tornar-se presidente da Central Sindical Internacional (CSI) em 2014.

Luis Marinho – Metalúrgico do ABC, presidiu a CUT entre 2003 e 2006. Foi Ministro do Trabalho por um período no governo Lula e atualmente é prefeito de São Bernardo do Campo pelo PT.

Arthur Henrique da Silva Santos – eletricitário e sociólogo, foi presidente dessa central entre 2006 e 2012, tendo sido reeleito uma vez. Atualmente coordena o Instituto de Cooperação Internacional da CUT.

Vagner Freitas – bancário. Atual presidente da CUT, eleito em 2012.

   Temos, assim, que uma vez eleito para ocupar o cargo de dirigente máximo dessa central em nível nacional, sua carreira pública torna-se infinita.

   Desses 30 anos da CUT os últimos dez foram marcados pelo aprofundamento de sua relação simbiótica com o PT em função da chegada desse partido à presidência da República. Para muitos a partir de então a central tornou-se chapa branca. Vagner Freitas não enxerga dessa forma, apesar de concordar que a relação cutista com o governo federal mudou após o governo Lula. Segundo ele, isso se deu porque "Lula é fruto da luta da CUT", e tornou-se "o maior exemplo do sindicalismo cutista". Sendo assim, a central não poderia tratar o seu governo, como também o de Dilma, "da mesma forma que o Meneguelli tratou os militares, o Sarney e o Collor, nem como o Vicentinho tratou com FHC". Para Freitas o que explica essa mudança é que "os tempos são outros".

   Entretanto, fica difícil percebermos tanta diferença entre Dilma e FHC quando observamos o leilão da Bacia de Libra realizado pelo governo federal esta semana. Os tempos até podem ser outros mas a sensação de déjà vu torna-se iminente quando agora lembramos do ano de 1995 e do ataque feroz de Fernando Henrique à greve dos petroleiros que tinha como uma de suas bandeiras a defesa do monopólio estatal do petróleo, que chegava ao fim justamente naquele momento.

   Por outro lado, foi fácil percebermos a ausência de faixas e cartazes cutistas, assim como de seus principais dirigentes, nas recentes manifestações contra o leilão de Libra. Se em 1995 a central foi uma das principais articuladoras da luta para que o petróleo brasileiro se mantivesse longe das garras das petrolíferas estrangeiras, em 2013 os poucos discursos de seus dirigentes contra a continuação da entrega das riquezas do subsolo brasileiro foram mera retórica.

sábado, 28 de setembro de 2013

Áudio do Programa Censura Livre sobre o livro "Novo sindicalismo - História de uma desconstrução".

Áudio do Programa Censura Livre de 21-09-2013, com a presença de Teones França, historiador. O tema principal foi "Novo sindicalismo - História de uma desconstrução", sobre as transformações sofridas pelo sindicalismo surgido em fins dos anos 1970 no ABC paulista.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Livro “Novo sindicalismo no Brasil – histórico de uma desconstrução”.


         Esse livro, publicado pela editora Cortez em 2013, busca desconstruir a propalada crise do sindicalismo que surgiu em fins da década de setenta do século passado se autointitulando como “novo”. Se esse sindicalismo – que talvez tenha tido sua máxima personificação na figura de Luis Inácio da Silva – tinha em seu nascedouro uma postura extremamente crítica ao Estado e aos setores patronais brasileiros, chegando até mesmo a levantar bandeira pelo socialismo, adentra os anos 1990 adotando uma prática bastante diversa, privilegiando a conciliação.
         É justamente quanto a essa mudança de postura que o livro procura apontar caminhos que possam elucidá-la melhor, partindo das análises e diferentes visões das principais correntes sindicais que no período entre 1988 e 2000 compunham a Central Sindical que melhor expressou esse novo sindicalismo, a CUT, sobre as recentes transformações na produção, que chega ao Brasil a partir do governo de Collor de Melo e sobre a gradativa institucionalização dessa Central à ordem vigente.
         Esse retorno ao passado recente permite-nos também verificarmos a gestação de certas propostas políticas que serão colocadas em prática pelo Executivo brasileiro nos últimos dez anos de governo petista.

         Abaixo, a orelha e a apresentação do livro escritas, respectivamente, pelos professores Marcelo Badaró (UFF) e Ricardo Antunes (Unicamp):

          Transcorridas três décadas depois do nascimento do novo sindicalismo no Brasil, cujo marco pode ser datado com a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, muitas foram as suas metamorfoses e mutações. O projeto inicial estruturado com base no sindicalismo de classe, autônomo em relação à estrutura sindical e independente em relação ao ideário dominante, deu lugar a algo que, em muitas de suas dimensões, é quase o seu oposto.
         Preservou-se muito da velha estrutura sindical atrelada ao estado, com sua feição burocratizada e cada vez mais verticalizada; manteve-se sua dependência em relação às verbas estatais (como o imposto sindical e FATs), para não falar da sua conversão em participes dos fundos de pensão e seu mercado de capitais.
         Um sindicalismo negocial, cada vez mais baseado nas parcerias, acabou, finalmente, tornando-se dominante. Foi exatamente para procurar auxiliar na compreensão deste fenômeno que Teones França oferece o seu livro NOVO SINDICALISMO NO BRASIL: histórico de uma desconstrução.
         Voltar “ao passado e tentar encontrar pistas para a explicação de indagações postas pelo presente” foi, como diz o autor, seu objetivo primeiro. Empreitada necessária para todo/as que querem fazer florescer outro tipo de sindicalismo.
Ricardo Antunes (Prof. da Unicamp).

        Aqueles que como eu conheceram o sindicalismo brasileiro nos anos 1980 acostumaram-se a ver um polo mais combativo, com um discurso fortemente marcado pela defesa da autonomia de classe perante o Estado e os interesses patronais. Aquele polo, responsável por milhares de greves, tinha uma direção claramente identificada na CUT. Isso deve ser difícil de acreditar para um observador que só tenha sido apresentado ao sindicalismo cutista nestes nossos tempos de comportamento “colaborativo” com o governo e os patrões. O livro de Teones França é uma leitura obrigatória para quem quer entender as razões de tal contraste. Das condições materiais da chamada reestruturação produtiva, aos fatores da subjetividade política das lideranças que explicam a mudança nas relações com o Estado, sem descuidar dos referenciais que o ajudam a entender o potencial e os limites do sindicalismo, Teones nos apresenta um roteiro fundamental para compreendermos para onde foi o novo sindicalismo.

Marcelo Badaró Mattos (prof. da UFF).