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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

É HORA DE RETORNAR AS LUTAS?

Parabéns aos bancários e funcionários dos Correios por furarem a paralisia eleitoral!
Que ao menos no 2º turno os socialistas estejam juntos na defesa do voto nulo.
Teones França - Historiador ( 10/10/2014)


Os partidos de esquerda (PT não conta) são unânimes em afirmar que a disputa eleitoral e parlamentar são secundárias diante da luta prioritária nas ruas. No entanto, nos últimos três meses a paralisia nas lutas só foi quebrada nos bancos e nos correios e, ainda assim, no final desse período. Durante esse momento, Psol, PSTU, PCO e PCB transferiram seus discursos das ruas para as TV’s em busca do voto do eleitor. Além do mais, apenas o PSTU se prestou a utilizar seus poucos segundos televisivos para se solidarizar com os grevistas que ousaram não esperar o fim do calendário eleitoral.
Findada a disputa pelo voto está na hora de fazermos um balanço sério da participação dos socialistas nesse processo. E, primeiramente, é necessário dizer que “socialismo” foi a palavra menos utilizada por esses partidos, à exceção de PCB e PCO. Parece que o termo cada vez mais vai sendo relegado aos discursos em dias de festas. Os programas do Psol, inclusive, tocaram na palavra “trabalhador” menos até do que Garotinho, que por muitas vezes disse ser o representante dessa classe social (!).
Palavras é apenas a ponta do iceberg dessa inversão de valores. Iniciando o balanço pelo partido que, dentre os citados, obteve o maior número de votos e caminha a passos largos para ocupar o espaço de maior partido da esquerda, que o PT desocupou há algum tempo, o Psol, eleição após eleição, se direciona mais à direita, buscando enquadrar o seu discurso com o descontentamento da classe média progressista presente nos grandes centros urbanos do país. Fugindo dos temas mais polêmicos e das bandeiras socialistas, vimos suas principais figuras do Rio de Janeiro fazerem afirmações do tipo: “vote em fulano porque é o melhor” ou “dê um voto à ética”, o que não foi muito diferente do que foi dito pela maioria dos outros partidos tradicionais. A grandiosa votação que o candidato psolista a governador recebeu nesse estado se deve mais ao vazio à esquerda deixado pelo PT e à empatia de seu deputado estadual mais votado do que a um programa direcionado de maneira efetiva aos trabalhadores. Embora, seja inegável a excelente participação do candidato nos debates.
Como forma de coroar a participação eleitoreira desse partido, o dia seguinte à eleição foi ainda pior: seus militantes e eleitores foram orientados apenas a não votar em Aécio e o tal deputado mais votado declarou voto em Dilma, afirmando que o PSDB (apenas?) seria um retrocesso! Isso representa o posicionamento mais à direita do partido desde 2006, o que é extremamente contraditório já que coincide com o momento mais conservador do PT no governo. Certamente que esse giro do Psol deve-se ao começo da campanha para a prefeitura do Rio em 2016, verdadeiro sonho de consumo da legenda.
Os outros partidos, por um lado, cumpriram um bom papel para o campo socialista ao divulgarem importantes bandeiras programáticas da classe trabalhadora, como a reestatização das empresas estatais, estatização dos transportes, a tarifa zero etc. A defesa de um governo dos trabalhadores por parte do PSTU foi importante apesar de acabar se diluindo em algo extremamente abstrato numa propaganda eleitoral. Entretanto, por outro lado, todos cumpriram um papel nefasto ao legitimarem esse sistema institucional no momento em que este sofre o seu maior questionamento. Faziam até críticas e propostas radicais, mas ao final pediam o voto em seu partido, levando a grande maioria dos eleitores mais desavisados a acreditar que tais propostas seriam alcançadas com o voto nessas legendas. E, consequentemente, nenhum disse que eleição não enche a barriga de ninguém e não resolve os problemas dos trabalhadores.
A culminância disso foi a infelicidade do PSTU, na reta final de campanha, solicitar a ajuda para eleger um deputado e, assim poder participar dos debates na TV. Nesse cenário lamentável a ideia socialista original (participar das eleições é uma obrigação dos revolucionários enquanto as massas mantenham esperanças nas instituições da burguesia, entretanto, é necessário participar de modo a acelerar a experiência com essas ilusões, objetivando trazer à superfície a verdadeira faceta dessas instituições) foi parar na lata do lixo.
No fim das contas, com tempo tão escasso para apresentar suas propostas, essas três legendas acabaram por se confundir com as SuperZefas e que tais e não conseguiram arrebanhar o voto de protesto que foi dado aos Tiriricas, ao Psol e ao voto nulo. Quanto a este último, a meu ver, seria a melhor tática como forma de intensificar a crise de confiança no sistema eleitoral burguês. Mesmo que não faça parte de nossa “democracia” explicar como se deve agir para votar nulo e em praticamente nenhum veículo de comunicação tivesse sido feita a defesa desse tipo de voto, o total de nulos e brancos ficou na 2ª posição para governador no Rio de Janeiro e teve número altíssimo nos grandes centros do país, demonstrando toda a insatisfação e indignação com esse processo.
A indignação da população com o sistema não se refletiu em voto socialista para presidente, por exemplo. O Psol aumentou sua votação desde a última eleição, mas ainda assim ficou bem abaixo do índice atingido por Heloísa Helena em 2006. PSTU, PCB e PCO, em contrapartida, tiveram, mais uma vez, votações pífias que os devem levar a uma profunda reflexão se realmente valeu à pena a participação e ainda por cima de forma separada. Claro que dirão: “o resultado eleitoral não fazia parte de nosso objetivo”, mas o que foi dito acima a respeito do discurso do PSTU na reta final denota o contrário.
Já o Psol... chega de tergiversar, independentemente da existência de correntes internas contrárias ao pensamento majoritário da direção, já se tornou um PT dos anos 1990 piorado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

QUAL É O PAPEL DOS SOCIALISTAS NAS ELEIÇÕES?

Parte II/II
Teones França – Historiador  (25/8/2014)



 Além da decisão equivocada de participar dessas eleições ao invés de adotar uma política que vise aprofundar a crise de representatividade pela qual passa o sistema político brasileiro, os partidos de esquerda, que ainda propagandeiam a possibilidade de uma sociedade socialista – uns mais outros menos –, fazem uma campanha que tem deixado muito a desejar e que está, em grande medida, bem longe do ideal socialista. Vejamos rapidamente a atuação de cada um desses partidos que, inacreditavelmente, ainda estão desunidos em candidaturas distintas para os cargos majoritários.
O PSOL tem como um de seus slogans a frase “temos os melhores candidatos” ou como diz um candidato que atualmente é deputado federal pelo partido: “eu voto em fulano porque ele é disparado o melhor”. Ou seja, não se preocupa em apresentar nenhuma diferenciação de classe e, com isso, iguala-se aos demais candidatos dos partidos burgueses os quais pedem votos porque se autointitulam os melhores. Outro candidato desse partido, com maior expressão pública, pede votos para um postulante ao cargo de senador afirmando que ele “é um novo nome para combater a velha política”. Como assim? Basta votar nos candidatos do PSOL que a velha política será extinta? Que velha política é essa? Será a de políticos burgueses? Não sabemos, porque o partido não se preocupa com esse tipo de diferenciação.
Esse partido ainda utiliza uma frase do dramaturgo socialista alemão Bertolt Brecht para apresentar uma face mais à esquerda. No entanto, diante da campanha de cunho mais socialdemocratizante do que o PT nos melhores tempos ficamos sem saber como que a mudança, defendida pelos pessolistas com a frase “nada deve parecer impossível de mudar”, poderá ser alcançada. Será que apenas com a eleição?
A possibilidade concreta de esse partido eleger novos parlamentares, já que conta em seu staff com deputados bastante populares, pode estar direcionando sua campanha mais à direita para que o seu discurso se torne mais palatável aos setores de classe média menos afeitos às propostas ditas “radicais”. Ao contrário do PSOL, os outros partidos da esquerda, certamente por terem menos chance de eleger seus candidatos, aplicam na campanha um tom mais agressivo e mais próximo a um viés socialista, como a estatização dos transportes, a tarifa zero e a reestatização das empresas privatizadas. Entretanto, não se eximem de cometer mais equívocos.
O PCO, em seus programas, defende o socialismo e até a revolução, mas utiliza uma linguagem que só é entendível para uma pequena vanguarda, vanguarda esta que acredita que as eleições de nada servem e é possível que nem se obrigue a ir votar. Sem contar que em poucos segundos nem o melhor jornalista do mundo conseguiria tornar essa temática palatável a um público amplo.
O PCB também utiliza seus poucos segundos diários para fazer a defesa da revolução que levará a ascensão de um poder popular. O que isso significa e como construir isso? Apenas os militantes do partido devem saber.
Já o PSTU tem o mérito de defender a necessidade de se construir “um governo dos trabalhadores, sem patrões”, mas não diz como e ao que tudo indica para se chegar a tal governo basta votar nos candidatos do partido. Esquiva-se de tratar das questões mais teóricas, procurando apresentar seu ponto de vista crítico sobre aspectos da atualidade, mas como almeja dialogar com apenas um setor minoritário da sociedade faz esquisitices do tipo em seu primeiro programa televisivo tratar da guerra no Oriente Médio. Tema de extrema relevância e mais fundamental ainda quando se exige na TV que o governo Dilma rompa com Israel. No entanto, fazer isso no início da campanha televisiva, quando a população está esperando ouvir propostas para a resolução dos problemas do país, soa como uma total falta de sensibilidade.
O fato é que NENHUM desses partidos fez até o momento e nem fará críticas ao sistema eleitoral e à incapacidade desse processo melhorar as vidas das pessoas. Também não apontarão como positivo que ao menos 20% dos eleitores se neguem a votar e que outros tantos anularão seu voto, esquecendo-se do real papel dos socialistas nas eleições: propagandear que as eleições não melhoram a vida da população mais pobre e que as mudanças sociais só virão através da luta nas ruas.
Nem todos fazem como o PSOL, afirmando que têm os melhores candidatos, mas TODOS chamam o voto em seus candidatos, acabando por corroborar com o sistema e sua intenção de que as eleições sejam um sucesso de público.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

DEPOIS DA COPA VEM A DISPUTA PELO VOTO


O que esperar das primeiras eleições após as manifestações contra a corrupção?   (ÚLTIMA PARTE)           
Teones França – Historiador       (28/7/2014)


Nas três partes anteriores deste texto tratei do tema das eleições de 2014 de uma maneira ampla e sem especificar os meus interlocutores. Nesta parte final, além de defender o voto nulo como sendo a política mais acertada para o pleito que ocorrerá em outubro próximo, procurarei dialogar com um público mais específico: os que se consideram socialistas, muitos dos quais são militantes ou simpatizantes de partidos como o PSTU, o PCO, o PCB e de algumas correntes que se agrupam no PSOL.
Já que parto do pressuposto de que vivemos em uma sociedade dividida em classes inconciliáveis entre si e que se digladiam o tempo todo por almejarem interesses distintos, e concordo com os que diante desse cenário consideram a imparcialidade improvável, esta parte preocupa-se em debater essencialmente com os que têm nítida sua opção de classe ao lado dos trabalhadores. 
É possível que todos que se identificam com essa opção concordem com o que pensava Lenin sobre a participação dos representantes dos trabalhadores – no caso, especificamente os “revolucionários” – nas eleições burguesas. De acordo com o líder da revolução russa era uma obrigação dos revolucionários participarem das eleições e do parlamento enquanto as massas mantivessem esperanças nas instituições da burguesia, entretanto, era preciso lutar contra essas ilusões fazendo do parlamento um bastião das lutas proletárias, trazendo à superfície a verdadeira faceta dessas instituições, acelerando, assim, a experiência com elas. Outro ensinamento dos “clássicos” socialistas é que para se evitar o desvio esquerdista – “a doença infantil do comunismo” – é necessário fazer política tendo como referência as massas e não a vanguarda.
Tomando essa lógica como base, participar ou não das eleições é uma mera decisão tática e não um princípio que possa definir se os partidos socialistas são eleitoreiros ou capituladores ao jogo burguês. É a conjuntura que irá definir a tática mais adequada a ser elaborada. Numa eleição ocorrida em plena ditadura, por exemplo, é bem possível que a política mais acertada seja a coligação com os setores burgueses contrários a esse regime. A questão central e definidora é que para os socialistas o objetivo final de sua participação nas eleições não é a eleição de parlamentares.
Nesse sentido, foi absolutamente incompreensível o que ocorreu nas últimas eleições presidenciais, onde os partidos do campo socialista se pulverizaram em várias candidaturas. Resultado: Plinio, do Psol, José Maria, do Pstu, Rui Pimenta, do Pco, e Ivan Pinheiro, do Pcb obtiveram JUNTOS menos de 1% dos votos totais. Perderam feio para nulos e brancos. Não acredito que caso estivessem reunidos numa única candidatura o resultado pudesse ser necessariamente mais positivo, mas certamente as propostas apresentadas teriam uma ressonância maior. Além do mais esse resultado pífio reflete o pensamento predominante no conjunto de nossa sociedade atualmente que, conforme discutimos nas partes anteriores deste texto, tende a cada vez mais questionar as eleições, o parlamento e a atuação dos políticos indistintamente.
A impressão que transparece é que se tratava apenas de uma disputa paralela entre essas siglas, unicamente para apresentar sua legenda e seu programa, mesmo que seu discurso não tivesse eco algum. Ou seja, uma política feita apenas para a vanguarda e sem saldo positivo para os socialistas. E, pior, a população ignorou essa disputa paralela, esses partidos se misturaram junto às legendas burguesas na sopa de letrinhas que é o sistema partidário brasileiro e, consequentemente, foram também achincalhados pela população. No entanto, os principais dirigentes dessas legendas deviam pensar e defender internamente: “é apenas a visão de uma massa iludida, temos pouco com que nos preocupar já que somos bons e o resto é m.”. De todos eles, nitidamente é o Psol o que aparenta a maior avidez pela eleição de parlamentares como meta principal. Se isso não fosse verdadeiro, como explicar a negociação de uma aliança com outros partidos de esquerda em São Paulo e não ter a mesma postura no Rio de Janeiro? Resposta: no Rio existe a candidatura do deputado “Tropa de Elite” que somará (ainda) muitos votos para essa legenda, um quantitativo que não deverá, para esse partido, ser compartilhado numa coligação com outros que obterão votações bem menores.
A insensatez se repete em 2014 e novamente esses partidos apresentarão candidaturas próprias para presidente e se espalharão num caleidoscópio surreal ao lado dos candidatos dos partidos burgueses. Será que as diferenças programáticas entre eles justificam esse distanciamento eleitoral? 
Entretanto, a miopia política desta vez é bem maior levando em consideração o que busquei discutir nas partes anteriores. Parece cômico, mas é trágico. Enquanto uma parcela cada vez maior da população brasileira dá as costas para as eleições, negando-se a fazer parte desse “teatro dos vampiros” – seja não indo votar, clicando no branco ou anulando o voto –, os que se dizem socialistas insistem em fazer figuração nesse processo, buscando a todo custo permanecerem como partidos reconhecidos oficialmente pelo Estado, locupletando-se, da mesma maneira que os outros, com dinheiro público.
O papel dos socialistas deve ser o de destruir as instituições burguesas, dentre elas o parlamento e as eleições, e não corroborar com esses pleitos alimentando as ilusões lançadas pela burguesia sobre os trabalhadores de que a solução para as suas mazelas só podem ser encontradas no processo eleitoral. Dirão os dirigentes desses partidos: “não geramos ilusões”. Então, proponho o seguinte exercício a todos que consigam permanecer acordados no horário eleitoral: observe qual dos partidos supracitados utilizará o seu parco tempo na mídia para defender que as eleições não passam de um mero jogo da burguesia, que elas não resolvem a vida dos trabalhadores, que aqueles que se negam a aceitar esse jogo e se recusam a votar não são meros tolos por igualarem todos os candidatos. Lamentavelmente, acho pouco provável que algum deles se digne a defender essas ideias.
De minha parte, estarei nas eleições 2014 ao lado daqueles que empunharão a bandeira do VOTO NULO, não porque todos os políticos sejam mais do mesmo, mas porque o sistema iguala todos que nele adentra. É possível que a campanha na mídia consiga alterar o grau de apatia eleitoral da população, mas não é isso o que as jornadas de junho do ano passado e o cotidiano dos que trabalham, das donas de casa, dos botequins etc. nos sugerem. Portanto, acredito que num momento como este em que uma parcela considerável dos trabalhadores brasileiros questiona as instituições burguesas e o sistema eleitoral, os socialistas têm a obrigação de contribuir para acelerar essa experiência.

terça-feira, 29 de julho de 2014

DEPOIS DA COPA VEM A DISPUTA PELO VOTO.


O que esperar das primeiras eleições após as manifestações contra a corrupção?   (PARTE III)           
Teones França – Historiador       (21/7/2014)


O “voto certo” pode melhorar nossas vidas?

Consequência direta da história política brasileira, nos poucos períodos em que nossa democracia permitiu que eleições acontecessem as pessoas acreditaram que política é algo a ser exercido meramente por políticos, identificados por elas como os ricos e poderosos. Nesse sentido o voto foi sendo banalizado a ponto de ser vendido por alguns trocados, uma fornada de tijolos, um jogo de camisas de futebol ou, mais recentemente, trocado pela bolsa-família, expressando que a população trabalha com a seguinte lógica: “se sou obrigado a fazer parte desse circo, que seja para ganhar alguma recompensa” já que – infelizmente, talvez – é característica do brasileiro sempre querer ser mais “malandro” que os outros. Também existem aqueles que concedem seus votos aos amigos (não é por coincidência que muitos candidatos se identifiquem como “o seu amigo”), pois se é para “alguém se arrumar” que seja um conhecido.
Assim, à exceção dos partidos criados a partir de uma ideologia, mas que possuem pouca influência eleitoral – e, por isso, são chamados preconceituosamente de nanicos –, as mais de trinta siglas oficialmente existentes no Brasil atual são meras legendas eleitoreiras, com programas muito parecidos, onde o que define o apoio a um governante é o quanto este irá pagar ou o cargo que irá oferecer. As alianças entre as legendas partidárias realizadas previamente às eleições também demonstram essa total falta de critério programático e, por conseguinte, não sabemos mais se ainda há partidos de esquerda ou de direita, eles se diferenciam apenas por fazer parte ou não dos governos. A tão falada reforma política não será a solução para alterar esse quadro e dar mais confiança ao eleitor de que o seu voto pode realmente fazer a diferença e modificar para melhor a situação do país, conforme é dito pelos artistas em propagandas pela TV, nas quais teimam em culpar o eleitor por todos os problemas sociais vivenciados pelo Brasil porque estaria votando errado. Nesse raciocínio estreito o voto seria o único meio para pôr o país em outros trilhos.
Nos últimos pleitos, parte do eleitorado, acreditando nessa ideia, tem buscado alterar esse quadro através da renovação, procurando eleger políticos que não sejam “profissionais”. Porém, ao analisarmos superficialmente o cenário político brasileiro percebemos que a renovação é rara. Os grandes caciques ainda ditam as regras. O maior exemplo disso talvez seja José Sarney, que exerce algum tipo de mandato desde o regime militar, quando fazia parte da ARENA, foi o primeiro presidente do período posterior a essa ditadura e permanece desde então sempre ocupando alguma cadeira no parlamento, mesmo que para isso tivesse até que mudar seu domicílio do Maranhão para o Amapá. No entanto, caso a renovação fosse total, da mesma maneira nada seria alterado, pois não há diferença entre os partidos com reais chances de conquistar os principais cargos e, dessa forma, sempre teremos mais do mesmo. As instituições estão em xeque e querem nos fazer crer que o culpado pelas nossas mazelas é o eleitor e não a falência do conjunto do sistema político que precisa seguir favorecendo a minoria burguesa.
Com certeza será bastante difícil que algum candidato na eleição de outubro próximo – mesmo aqueles dos partidos que se reivindicam socialistas – consiga chacoalhar o sentimento de apatia eleitoral que impera entre os brasileiros a ponto de fazê-los acreditar novamente que o seu voto pode realmente melhorar o Brasil e as suas vidas. Porque é fato que a maioria absoluta do povo não aguenta mais ver e ouvir horário político eleitoral onde todos, sem exceção, afirmam ser pela educação e pela saúde. No entanto, passada a eleição, a escola pública segue com qualidade duvidosa e os hospitais oferecem péssimo atendimento aos que não podem pagar por uma saúde “padrão-Fifa”. Ao que tudo indica, parece também não haver mais espaço para que candidatos peçam votos por se declararem “éticos e contra a corrupção” – slogan que aparece até mesmo no campo socialista –, mesmo porque ser ético e crítico da corrupção nada mais é que obrigação de todos, seja candidato ou não e, portanto, não deveria ser apresentado como um critério para definir em quem iremos votar.

Entender que política não é algo restrito aos políticos parlamentares de terno e gravata, mas que deve ser feita por todos já que tudo é consequência dela; da mesma forma, não acreditar que o voto é nossa única arma e, ao mesmo tempo, compreender que as melhorias sociais só serão alcançadas através das mobilizações dos setores populares, como nos ensinaram as jornadas de junho ano passado, é o caminho a ser trilhado para se alcançar uma vida melhor, ao menos para os mais pobres.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

DEPOIS DA COPA VEM A DISPUTA PELO VOTO.


O que esperar das primeiras eleições após as manifestações contra a corrupção?   (PARTE II)           
Teones França – Historiador       (21/7/2014)
As raízes dos vícios na política brasileira
As origens dos vícios em nosso sistema político podem ser encontradas há séculos atrás, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal. Foi naquele período de nossa história que começou a se configurar uma de nossas principais características, a qual trazemos conosco até hoje: o patrimonialismo. Trata-se da não diferenciação entre as esferas pública e particular por parte dos governantes e administradores públicos, que se iniciou a partir do momento em que o governo português concedeu total liberdade aos proprietários de terra na colônia brasileira permitindo que estes administrassem o poder político como bem entendessem. Assim, tornou-se tradição em nosso país as autoridades passarem a ocupar cargos públicos como se estivessem ocupando uma propriedade particular, o que lhes daria o direito, inclusive, de nomear parentes para o exercício de qualquer função sem a aprovação prévia por concurso público.
Apesar de essa situação vir se modificando ao longo do tempo, a sua essência permaneceu inalterada. O início da República, em 1889, trouxe novas situações que ajudam a entender o nosso descaso atual com as eleições. Até 1934, por exemplo, o voto não era secreto, o que facilitava o “voto de cabresto”, aquele em que uma pessoa rica (na época, geralmente, um fazendeiro) encaminhava o eleitor (seu funcionário ou apadrinhado) até a urna para forçá-lo a votar em seus candidatos.
O pouco crédito que a população brasileira dá aos partidos políticos também tem raízes em nossa história republicana. Até 1937, os partidos existentes tinham um caráter apenas regional (Partido Republicano Paulista, por exemplo). Com o início da ditadura do Estado Novo varguista naquele ano eles foram extintos. Somente após essa ditadura, em 1945, é que surgem as primeiras siglas de caráter nacional, como a UDN, o PSD e o PTB. Com o golpe militar em 1964, todos esses partidos foram extintos e permitiu-se o surgimento de apenas dois: a ARENA, ligada aos militares, e o MDB, para servir como oposição. O Partido Comunista é o único que fugiu a essa regra, pois fora fundado em 1922 e sempre se organizou em âmbito nacional, embora tenha passado quase todo esse período na clandestinidade, ou seja, sem ser reconhecido oficialmente e, logo, pouco participou de processos eleitorais.
Com o enfraquecimento da ditadura militar, em 1979 a ARENA e o MDB foram extintos e surgiu a maioria das siglas que conhecemos até o momento: PT, PMDB, PDT, dentre outros. Entretanto, até o episódio do Mensalão podemos afirmar categoricamente que apenas o PT e, em menor medida, o PDT, recebiam votos em massa destinados especificamente ao partido e ao seu conteúdo programático, enquanto que os votos recebidos pelos outros partidos eram originalmente destinados mais aos seus candidatos do que à plataforma política da legenda. Nos últimos anos esse segundo aspecto se espalhou a todos os partidos, inclusive ao PT, que passou a ser visto pela grande maioria dos eleitores brasileiros como mais um na multidão de siglas que compõem o cenário político-partidário em nosso país.
Parte desses vícios é enxergada de forma cada vez mais nítida pela população em geral que, com isso, aumenta a sua ojeriza pela “política”. Entretanto, outro vício que compõe o nosso sistema político, embora nem seja tão genuinamente brasileiro, ainda não se tornou superficial o bastante. Trata-se do favorecimento constante ao longo de nossa história das camadas mais bem favorecidas economicamente. Apesar das maquiagens realizadas vez em quando no processo eleitoral (permissão do voto às camadas mais pobres, ampliação do voto para as mulheres e, posteriormente para os analfabetos, utilização das urnas eletrônicas com o intuito de dificultar a fraude, possibilidade de alguns trabalhadores elegerem-se etc.), as eleições seguem – e seguirão – acontecendo para possibilitar aos ricos manterem seus representantes no poder legislando e executando as leis em seu benefício, sob os holofotes de uma suposta democracia.