segunda-feira, 23 de março de 2015


REALIDADE E ILUSÕES SOBRE A EDUCAÇÃO LIBERTADORA E OS FUTUROS ENFRENTAMENTOS DOS EDUCADORES COM O ESTADO

Teones França – Historiador  (17/12/2014)

 


(Parte II/II)

 

O que para os trabalhadores e seus representantes deveria ser uma educação pública de qualidade? Repetimos isso como um mantra há anos, mas sabemos de fato o que queremos ao erguer essa bandeira? Será que a lógica marxista de combinar instrução, ginástica e trabalho produtivo está presente aí? Talvez o debate de anos travado na Escola Politécnica (conceito esboçado inicialmente por Marx) da Fiocruz a respeito dessas questões possa ajudar bastante.

                No entanto, parece-me que essa e outras discussões a respeito da educação são por nós geralmente desprezadas. E, assim, não realizamos o debate e nos abstemos de disputar a consciência dos educadores sobre essas questões. A impressão que fica é que o único ponto de pauta presente em nossas assembleias é a deflagração ou não da greve. Pouco importa debater com o conjunto dos educadores a implantação de uma educação para os filhos dos trabalhadores. Com isso, apenas as propostas governistas adentram os portões das escolas públicas e temos que nos virar para questioná-las.

Quanto à educação na rede pública estadual, ao que se reduziu? Com seus currículos mínimos, objetivando padronizar por baixo os conteúdos para facilitar a melhoria dos resultados nas provas do governo federal e, consequentemente, o crescimento do índice do estado no Ideb; com suas políticas de meritocracia, meras “cenouras” postas à frente dos educadores para que corram com mais afinco despejando no dia a dia as estratégias medíocres do secretário de educação de plantão; com seus números reduzidos de funcionários, obrigando os mestres a se desdobrarem em diversas funções e transformando as escolas em reles depósitos de crianças que, supostamente, estudam enquanto seus pais vão ao trabalho.

O que faremos diante dessa realidade? O de sempre? Ou seja, greve para tentar recuperar nossas perdas salariais e questionar os projetos mirabolantes postos em prática em todo início de governo? Sem contar que nem apresentamos em contrapartida um projeto alternativo.

Acho que a greve segue sendo a principal tática de luta e resistência dos trabalhadores, mas é necessário secundarizá-la em alguns momentos, como este, para não desgastá-la. As greves de pouca adesão dos últimos anos (na rede estadual-RJ) e os parcos resultados obtidos afastaram ainda mais os educadores, temerosos com o corte de ponto e outras arbitrariedades. É salutar que analisemos bem a conjuntura do momento e paremos com a dicotomia greve ou peleguismo. Utilizar em dados momentos (como o próximo ano) outras formas de luta pode se mostrar mais adequado. Lembremos que no auge da luta sindical no Brasil nos anos 1980 novas formas de luta (greve cera, greve da vaca doida etc.) foram criadas com o objetivo de tornar a luta mais eficiente.

O boicote ao currículo mínimo deve voltar à baila. Não podemos aceitar a perda de nossa autonomia em decidir quais conteúdos devem ser ministrados. Consequentemente, debater em cada escola a necessidade de virarmos as costas para as tais provas governamentais que não servem para nada além de elevar o índice do estado no Ideb. É necessário dar mais ênfase à crítica à meritocracia, conceito que é bem aceito no conjunto da sociedade.

No mesmo sentido, uma campanha pelo não lançamento de notas no sistema on line também deve ser implementada. Se o governo se recusa a realizar concurso para funcionários, se não há secretários nas escolas a culpa não é nossa. Por que aceitarmos “adiantar aula” quando falta um colega? Por que não denunciarmos com mais competência as (várias) turmas nas escolas que passam o ano inteiro sem professores de diversas disciplinas?

Devemos também propor a recusa em aprovar aluno que não tenha rendimento suficiente. Chega de “empurrar” aluno para outra série porque o governo quer diminuir o índice de evasão e repetência. Ao final do ano, com um índice de reprovação condizente com o real poderemos divulgar que “essa é a verdadeira realidade da educação no estado”.

É verdade que essas propostas – e outras de orientação parecida – não são novas, mas a sua ênfase em momento tão frágil quanto o atual pode ser o possível a ser feito e, se bem feito, representar um passo importante na destruição por dentro da política governamental.

 

REALIDADE E ILUSÕES SOBRE A EDUCAÇÃO LIBERTADORA E OS FUTUROS ENFRENTAMENTOS DOS EDUCADORES COM O ESTADO

Teones França – Historiador  (17/12/2014)

 


(Parte I/II)

 

Fico apreensivo quando observo educadores caracterizarem a educação como libertadora, sob o ponto de vista do senso comum, ou seja, entendendo que ela possa libertar social e/ou economicamente.

Deixo claro, de antemão, de que maneira considero esse termo aceitável: na lógica original de Paulo Freire, cuja concepção prevê que o processo de educação pressupõe tanto a etapa de desvelamento de uma realidade quanto a prática de transformação desta. Introduzo essa discussão aqui apenas como uma análise prévia para apresentar pequena contribuição a respeito da atualidade da educação pública de 1º e 2º segmentos, em especial no que tange às escolas estaduais do RJ; e possíveis táticas de enfrentamento com os governos para o próximo período.

                “Estude para ser alguém na vida”. Ainda vemos professores aconselhando assim seus alunos. Crer que a educação possa libertar economicamente é risível diante da extrema competitividade no mundo atual, onde o mercado de trabalho é um gargalo estreito, mesmo para os diplomados. Foi-se o tempo em que “canudo” significava ascensão social”.

                É ilusória também a crença na libertação social através dessa educação. Muitos dizem que ela pode desenvolver a consciência crítica nos indivíduos. “Depois de 20 anos na escola, não é difícil aprender todas as manhas do seu jogo sujo...”. A educação de crianças, jovens e adultos pode tão somente possibilitar-lhes desvendar os códigos presentes no mundo a ponto de lhes dar condições de, caso queiram, ir à busca de uma consciência crítica. Entretanto, me parece que um número cada vez menor de letrados em rede pública ou privada torna-se sujeito crítico. O avanço da ciência e da tecnologia facilita o acesso a uma quantidade maior de informações, porém, são informações sem profundidade. Sabemos superficialmente de mais coisas e, ao mesmo tempo, sabemos muito pouco sobre elas.

                Num mesmo sentido, não podemos confundir consciência crítica com consciência de classe, pois esta última depende do conhecimento do indivíduo de sua posição dentro do processo de produção e é consequência da crescente luta política entre burgueses e trabalhadores no interior da sociedade capitalista. Portanto, a verdadeira consciência a qual os educadores dos filhos de trabalhadores deveriam almejar que estes atingisse, a consciência de classe, não é fruto simplesmente da presença deles na escola.

                Dessa forma, conclui-se ser inócua a crença de que o processo educacional, da maneira como é praticado, seja suficiente para libertar o indivíduo das amarras que o relegam às sombras e não o permitem compreender quem de fato são seus inimigos e que a sua liberdade total – ou ao menos, a melhoria de sua vida – depende da luta coletiva contra esses inimigos. Posto que, no máximo, esse processo pode desnudar a realidade em que se vive, mas não aponta as condições para a sua superação. Além do mais, trata-se de uma educação que parte do pressuposto de que é necessário transportar conteúdos e anseios sociais das melhores escolas privadas – de ricos – para as escolas de pobres. Ora, os ricos não estão muito preocupados em superar o status quo vigente. Essa lógica, baseada na educação cidadã (todos são iguais perante a lei), não nos serve, pois não se pauta pelo critério de classe, este, sim, imprescindível num processo educacional transformador que leve em conta a desigualdade social.

“ISSO, ISSO, ISSO!”

A ATUALIDADE DO SERIADO CHAVES: INGENUIDADE E REALIDADE.

TEONES FRANÇA - HISTORIADOR- 30/11/14

 


                Morreu Roberto Gómes Bolaños.

                Dito assim parece apenas uma informação cotidiana anunciando o falecimento de uma pessoa desconhecida. À exceção dos obcecados pela TV Globo, no entanto, quando se acrescenta a esse obituário o epitáfio de que se trata do criador e intérprete do personagem principal do seriado Chaves, certamente a consternação amplia-se bastante já que mesmo os que não eram fãs do “menino do barril” nada tinham contra ele.

                Igualmente a muitos brasileiros, me ponho no rol daqueles que reclamavam junto ao SBT cada vez que o seriado era retirado da grade de programação; nesses últimos trinta anos a série mexicana está entre as poucas coisas que me prendem à frente da televisão. Nos idos de minha infância isso era algo compreensível, mas, tratando-se de um jovem senhor, rever de forma repetitiva os episódios exibidos desde o início da década de 1980 foge até ao meu próprio entendimento. Como encontrar nessa atitude explicação racional para além de um mero “complexo de Peter Pan”?

                A morte de Bolaños me levou a refletir a esse respeito e cheguei à conclusão de que não é tão difícil responder a essa pergunta.

                Há muito além da piada fácil e dos bordões repetitivos. O riso saía – e sai – frouxo em situações simples, construídas num momento distante da chatice do “politicamente correto”. As chacotas feitas a um menino obeso ou a uma idosa – que de tão feia é chamada de “bruxa” – soava ingênuo há três décadas. Uma ingenuidade castrada recentemente pelos (mal-humorados) arautos defensores da “correção”. Cabe destacar ainda a despreocupação em manter em diversas cenas dois personagens fumando cigarro ou charuto. Um cenário pouco parecido com a hipocrisia atual.

                Era – e segue sendo – fácil se identificar com as traquinagens naturais de crianças de oito anos interpretadas por adultos. Por sinal, apenas esse fato já demonstra que não estava entre os objetivos do programa ser totalmente realista, mesmo porque muitas das situações engraçadas em seriados de humor originam-se justamente nos exageros sobre a realidade. Como é chato vermos programas tolos tentando falar de coisas aparentemente sérias. Chaves, não. Pretendia ser bobo, e era mesmo, desde a sua proposta inicial. Mas, uma bobeira fruto da ingenuidade própria da infância.

                É notória a semelhança do menor abandonado, ávido por um sanduíche de presunto, com milhões de crianças espalhadas pelo mundo – assemelhando-se, assim, também com o Carlitos chapliniano. É totalmente plausível traçarmos um paralelo entre o cortiço onde acontecem os principais episódios e a situação precária de moradia de tantos e tantos latino-americanos. As dificuldades enfrentadas pelo professor Girafales ao tentar ensinar seus alunos também é algo bem real e atual. Rir da cruel realidade imposta (por quem?) aos mais necessitados – essa sim, uma das propostas de Bolaños.

                Foi exatamente essa questão social, latente em quase todos os episódios de Chaves, que me tranquilizou quando, adulto, passei a questionar por deixar-me entreter por um seriado infantil, da mesma maneira que também comecei a criticar a idolatria por Bolaños que me acompanhava, ignorando a passagem dos anos e o avançar da idade.

                A crítica social feita por Bolaños me bastava para justificar sem culpas minha presença à frente da TV. Não queria saber seu posicionamento a respeito da revolução mexicana e de Emiliano Zapata; pouco importava o que pensava sobre os zapatistas e o comandante Marcos; se votava no PRI; não interessava se emocionava-se diante dos murais de Diego Rivera e das pinturas de Frida Kahlo. Era melhor que eu não buscasse essas informações. Sabe-se lá se ele iria me desapontar e há poucas coisas tão deprimentes quanto o desapontamento de um fã para com seu ídolo quando se transpassa a fronteira entre ficção e realidade.

                Faz parte da vida. Infelizmente, morreu Roberto Gómes Bolaños. Contudo, Chaves sempre permanecerá vivo na memória de milhões de adultos e crianças que se encantaram e se encantam com as historinhas ocorridas em torno de um menino órfão, que foi adotado por uma senhora que morava num cortiço, na casa 8, e tornou-se abandonado ainda bebê após o falecimento dessa mãe adotiva. Mais que isso, Chaves seguirá sendo atual enquanto essa sociedade tão desigual continuar a existir. Portanto, os episódios de Chaves continuarão atraentes simplesmente porque milhões de Chaves seguem morando em barris, sonhando com um sanduíche de presunto neste exato momento.

DIREITO DE GREVE DOS SERVIDORES PÚBLICOS AMEAÇADO.

É só uma prévia dos ataques aos trabalhadores no 2º governo Dilma.

 

Teones França – Historiador    (1/12/2014)

 

            No dia 11 de novembro último o relatório do Senador Romero Jucá (PMDB-RR), que trata da regulamentação do direito de greve dos servidores públicos, foi aprovado na Comissão Mista do Senado e agora seguirá para debate e aprovação no Congresso Nacional. Essencialmente, o texto busca impedir uma ação grevista vitoriosa por parte desses trabalhadores, mas, apesar disso, foi elaborado após a realização de diversas reuniões com representantes de sindicatos, federações, confederações e centrais sindicais, como ressalta o próprio relator. Resta saber se essas entidades concordam com o resultado final do relatório ou se empreenderão campanhas nacionais contra a sua aprovação.

            O argumento central de Jucá para justificar a sua proposta perpassa pela diferenciação que julga existir entre trabalhadores dos setores público e privado. Em sua visão, no setor público não há oposição entre capital e trabalho, mas sim entre o Estado e seus servidores. Ou seja, entre os servidores públicos e o seu empregador não há luta de classes, mas apenas conflitos que podem ser resolvidos de maneira amistosa. Creio que nem precisemos resgatar Marx para contra-argumentar ao relator que não existe Estado neutro, tendo em vista que este sempre está – e esteve ao longo da história – preocupado em defender os interesses dos setores dominantes.

Ainda segundo Jucá, por tratar-se de serviços de atendimento ao público não lhes deve ser permitido o abandono total das funções oferecidas à população. Convenhamos que essa última questão possui um enorme apelo popular.

            Sendo assim, a proposta permite a greve aos servidores, mas impõe, em caso de sua deflagração, que 60% do total de funcionários permaneçam trabalhando nos serviços considerados essenciais, e 40% nos demais serviços. Ou seja, permite-se que se exerça o direito de greve desde que ela não aconteça. Ora, se é justamente a paralisação total do serviço oferecido à população que torna uma greve forte, como torná-la vitoriosa quando mais da metade do quantitativo de funcionários são obrigados a não aderi-la? Como realizar a pressão sobre o empregador quando a população praticamente não sente os efeitos da paralisação? É, definitivamente, a cassação do direito de greve aos funcionários públicos.

            Além do mais, a proposta aponta vinte e três serviços a serem considerados como essenciais! Dentre eles: serviços de emergência hospitalar e atendimento ambulatorial; tratamento e abastecimento de água; captação e tratamento de esgoto e lixo; vigilância sanitária; produção e distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis; segurança pública; defesa civil; controle de tráfego aéreo; transporte coletivo; serviços judiciários; e serviços de educação infantil e ensino fundamental. Ainda veda o direito de greve aos membros das Forças Armadas, das Polícias Militares e do Corpo de Bombeiro Militar.

            O Judiciário, por sua vez, terá o poder de acabar com a greve assim que as determinações impostas não forem atendidas pelos trabalhadores. A suspensão do pagamento de salários também poderá ocorrer imediatamente após o início da atividade grevista independentemente do cumprimento das exigências pré-determinadas.

            Até a Constituição de 1988, o direito de greve no Brasil não existia ou, em alguns momentos, foi concedido apenas aos trabalhadores da iniciativa privada. A proposta que será encaminhada ao Congresso é, portanto, um retrocesso diante do que estabelece nossa última Constituição e está bem aquém do que sugere a OIT no que se refere às relações entre governos e servidores público. Porém, esse é apenas a ponta do iceberg dos ataques que serão desferidos aos trabalhadores no segundo governo Dilma. O PT e a presidente terão que fazer concessões à burguesia para seguirem se credenciando como fiéis defensores da ordem do capital, posto que ficou um tanto ameaçado com as últimas eleições. É bastante provável que as tão propaladas Reformas (tributária, trabalhista etc.) se avizinhem num futuro próximo, o que, certamente, significará mais ataques ao conjunto dos trabalhadores.

Esse cenário só não se concretizará caso o PT necessite novamente de apoio dos movimentos sociais como contrapartida a possíveis ataques da burguesia ao seu governo. Contudo, apesar das críticas que possam realizar ao governo aqui e ali, os burgueses seguem bastante contentes com seus lucros como nunca antes na história desse país.

APÓS A MASSIFICAÇÃO ELEITORAL, O QUE ESPERAR DE MAIS QUATRO ANOS COM O PT NO GOVERNO?

Teones França – Historiador (4/11/2014)

(PARTE III / III)

 

O PT “endireitou” o país

 

                Tanto no 1º quanto no 2º turno, após a divulgação dos resultados confirmarem a vitória eleitoral de Dilma, as redes sociais foram abarrotadas de postagens preconceituosas aos nordestinos, responsabilizando-os pela vitória da candidata petista por tratar-se de eleitores menos instruídos e de baixa condição financeira, fato que os fazem dependerem dos benefícios sociais do governo. Protegido pelo anonimato da internet, o ódio aos nordestinos pôs a nu o lado cruel e conservador que está arraigado na faixa centro-sul de nossa sociedade. Muitos aderiram à proposta de um deputado estadual recém-eleito pelo PSDB em São Paulo, que defendia a separação desse estado do restante do país, assim como a do ex-Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., que propôs a construção de um muro dividindo o país em dois ao lado da seguinte frase: “vamos respeitar os eleitores do PT e mandar a Dilma só pra eles”.

                A ideia da separação da região sul ou de São Paulo do restante do Brasil é fomentada há décadas e conta com a simpatia de parcela considerável da população dessas regiões. Entretanto, a responsabilidade pela vitória petista não pode ser posta sobre os ombros dos eleitores das regiões norte-nordeste, pois a votação de Dilma no sul e sudeste foi quantitativamente maior da que obteve no norte e nordeste.

                O ódio ao nordestino é parte de um processo maior: o conservadorismo crescente que vem assolando a sociedade brasileira nos últimos anos. A participação do PT na presidência do país contribuiu bastante para que chegássemos ao estágio atual.

                Esse partido chegou ao cargo máximo do Brasil em 2003 sob um clima de muita esperança, afinal era a primeira vez em nossa história que um trabalhador – e, ainda mais, vinculado a um partido de esquerda – assumia a presidência do país. Inegavelmente, as duas pontas extremas de nossa sociedade obtiveram avanços com o PT no governo: enquanto empresários e banqueiros aumentaram seus lucros e se capitalizaram cada vez mais, a camada mais pobre elevou um pouco sua renda mensal através dos benefícios das políticas compensatórias, como o Bolsa Família. Contudo, o mesmo não se pode dizer da classe média que, com o pagamento de seus impostos, bancam, em grande medida, as políticas sociais.

                Quando vieram à tona os escândalos de corrupção – iniciados com o Mensalão, em 2005 –, numa clara demonstração de descaso com o dinheiro público, esse setor da sociedade se revoltou de vez e ficou mais difícil fazê-lo aceitar qualquer sacrifício em nome do país. A corrupção tornava-se, erroneamente, o grande mal a ser enfrentado. Pouco importava os lucros astronômicos crescentes do Bradesco, do Itaú etc. com a oficialização descarada da agiotagem.

                A leitura feita pela maioria desse setor pensante de nossa sociedade, que se orgulha em compor o grupo dos “cidadãos de bem”, que paga em dia suas dívidas, mesmo que à base de muito esforço, foi: se um trabalhador e um partido de esquerda, que sempre defenderam a ética e criticavam a má utilização das verbas públicas, ao chegar ao governo fez igual ou pior que os antecessores é porque realmente têm menos qualidade para ocupar cargos da administração pública. Os partidos de esquerda, os trabalhadores, os pobres, como um todo, sofreram a rebarba desse processo e passaram (ou voltaram) a ser vistos de maneira preconceituosa, como incapazes, despreparados. O fato de Lula não possuir um diploma universitário acirrou ainda mais esse preconceito. Menos do que a elite, que não tem muito do que reclamar dos governos petistas, serão justamente certos setores da classe média que irão fomentar o antipetismo e apoiar qualquer candidatura que apresentasse a possibilidade concreta de derrotar Dilma nas eleições.

                Se, por um lado, os grupos de esquerda perderam espaço em nível nacional, por outro, o pensamento mais conservador – “de direita” – ampliou o seu espaço. Esse processo fomentou o avanço da crítica a propostas progressistas, como a legalização da maconha ou o casamento homossexual. Fez crescer a defesa de propostas mais conservadoras, como a redução da menoridade penal, a desconsideração dos direitos humanos para aqueles que descumprem as leis e o retorno dos militares ao poder. Com tudo isso, não é de se estranhar que Jair Bolsonaro, um dos maiores representantes do conservadorismo no país, tenha sido o deputado mais votado no Rio de Janeiro, estado tradicionalmente visto como “de esquerda”, e a bancada evangélica aumente suas cadeiras no Congresso Nacional. A “direita” brasileira perdeu a vergonha, retirou o véu e, de peito estufado, se sente com mais moral e está prestes a consolidar por aqui algo análogo ao grupo que está em torno a Le Pen, na França.

                Se comparada aos anos 1980, momento em que a ditadura militar chegava ao fim, a sociedade brasileira atual está muito mais conservadora e, sem dúvida, a maior responsabilidade disso deve recair sobre o PT, seus escândalos de corrupção e certo autoritarismo em seu modo de governar, característico desse partido desde os tempos em que esteve à frente dos principais sindicatos do país. Dessa última questão, inclusive, é que suscitam comparações – equivocadas, por sinal – com o chavismo venezuelano. Mas, isso merece análise mais detalhada.

 

APÓS A MASSIFICAÇÃO ELEITORAL, O QUE ESPERAR DE MAIS QUATRO ANOS COM O PT NO GOVERNO?

Teones França – Historiador (4/11/2014)

(PARTE II / III)

 


 

A falsa polarização PT-PSDB

 

                A mídia em especial tentou estabelecer uma falsa polarização no país a partir do cenário eleitoral, apontando um fosso entre os dois projetos representados pelos candidatos concorrentes. Nada mais irreal. Aliás, nem no pleito inicial poderíamos afirmar categoricamente que a proposta personificada pela candidatura Marina Silva fosse tão destoante das propostas de Dilma e Aécio. Outras polarizações vivenciadas pelo Brasil ao longo de sua história política eram bem mais verdadeiras, como foi o caso dos embates entre UDN e PTB nos anos 1950, e entre ARENA e MDB nos quinze primeiros anos da ditadura militar.

                Exageros polêmicos foram apresentados pelos dois lados. Vamos a alguns deles. O lado petista tentou vender a imagem de que estava em pauta uma disputa entre pobres e ricos. Se isso fosse realmente verdadeiro, Dilma teria vencido com uma larga margem de diferença, tamanha é a desproporção entre pobres e ricos no país. Por outro lado, é fato que a elite brasileira se sente – ou se sentiria – mais segura com o PSDB no governo, pois se trata de uma legenda composta quase que em sua totalidade pelos setores vinculados à burguesia. Ademais, também é fato que nos governos em que o PT esteve à frente os empresários e banqueiros se locupletaram bastante, como “nunca na história deste país”.

                Os aecistas ficaram roucos de tanto repetir que os 12 anos petistas na presidência foram os mais corruptos já vividos no Brasil. O candidato chegou até a afirmar que para acabar com a corrupção no país bastaria tirar o PT do governo. Caso possuíssemos um corruptômetro poderíamos até verificar se tal afirmação condiz de fato com a verdade. No entanto, pouco importa descobrirmos quem mais causou prejuízo aos cofres públicos brasileiros se temos a certeza de que o mesmo grupo que está ao lado de Aécio compôs o governo FHC, período em que casos de corrupção envolvendo rombos no erário não faltaram, sendo, inclusive, destacados à época pela mídia. Alguns deles: a compra de votos para a aprovação da emenda da reeleição no Congresso Nacional; os problemas de transparência no contrato para a execução do projeto do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM); a enorme contribuição ao capital financeiro com o PROER, programa que socorreu financeiramente os bancos que foram à falência em 1995; tudo isso sem que precisemos mencionar as denúncias de corrupção no Metrô de São Paulo (governado pelo PSDB) e que as origens do Mensalão petista estão num governo desse partido em Minas Gerais.

                Assim como ocorreu em 2010, os correligionários de Dilma desferiram ataques ao candidato oponente acusando ele e seu partido de terem entregado diversas empresas estatais à iniciativa privada. Diante de acusação incontestável, raramente vimos os psdbistas defendendo o programa de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso. Isso porque parcela considerável da população brasileira tornou-se crítica às privatizações após realizar a experiência com os serviços públicos entregues às empresas privadas que, apesar de caros, continuam de péssima qualidade.

                Entretanto, é falsa a afirmação de que os governos petistas não colocaram em prática esse tipo de política. Denominando privatização de “concessão”, Lula e Dilma entregaram diversas rodovias ao capital privado. Portos e aeroportos vão pelo mesmo caminho. Com as Parcerias Público Privadas garantem financiamento público para serviços a serem tocados pelo setor privado, como as obras do Programa de Aceleração para o Crescimento.

                Quanto ao Bolsa Família, todos queriam ser o “pai da criança”, e, nesse ponto, ambos tinham razão. O PT distribuiu o benefício a milhões de famílias, unificando várias Bolsas que haviam sido criadas por FHC em uma única. Resta a dúvida, porém, se pleitear a paternidade de um filho desses seja algo a se orgulhar, apesar dos votos que ele traz consigo, ainda.

                Portanto, em que pese as “viúvas do PT” (seus ex-militantes) terem, mesmo que de maneira contrariada, votado em Dilma no segundo turno, não há nada mais falso que a ideia de que havia dois projetos distintos se confrontando nesse pleito. Do mesmo modo, também não é verdadeira a tese que identificava o programa de Aécio como liberal e o de Dilma como de viés estatizante (neodesenvolvimentista talvez fique mais pomposo). Ambos eram, e são, liberais e têm como objetivo número um a manutenção dos privilégios dos grandes empresários e banqueiros – não foi à toa que esses grupos fizeram doações para ambas as campanhas. A divergência quanto a autonomia ou não do Banco Central era pura questão de semântica. O PT pode até ter um furor maior sobre o controle da máquina estatal, mas nada que faça com que esse controle se reverta num projeto de desenvolvimento para o país.

                Sendo assim, muito rancor foi despejado por muito pouco já que o novo governo Dilma não será tão diferente do que seria um possível governo Aécio.

 

APÓS A MASSIFICAÇÃO ELEITORAL, O QUE ESPERAR DE MAIS QUATRO ANOS COM O PT NO GOVERNO?

Teones França – Historiador (4/11/2014)

(PARTE I)
 
 
 
 

Uma vitória parcial do PT

                Ao todo, foram quatro meses de campanha eleitoral. Pareceu uma eternidade ou uma demonstração de teorema, como diria Renato Russo: “parece que sempre termina, mas não tem fim!”. Durante 120 dias fomos sufocados por discursos vazios e falsas verdades, sempre ditos em nome da melhora do país e da vida da população. Diante desse rolo compressor as pessoas acabaram se envolvendo de corpo e alma, especialmente nas redes sociais. Agora, após a campanha ter chegado ao fim, rapidamente os ânimos serão arrefecidos, o ódio amainado e, assim como ocorreu com a Copa do Mundo, em poucas semanas não se falará mais nisso. Contudo, precisamos tirar lições do processo e analisar as perspectivas que se colocarão para o país no próximo período.

                Em nível nacional, a disputa foi extremamente acirrada no segundo turno e o país dividiu-se ao meio. Dilma reelegeu-se por uma pequena margem de diferença, mas o seu principal adversário não foi Aécio Neves e sim o antipetismo. O PT garantiu mais quatro anos na presidência sem precisar utilizar o seu principal jogador (Lula), o que sinaliza para a possibilidade de obter mais uma vitória em 2018. Entretanto, até lá teremos mais de 1400 dias de um novo governo Dilma, que possivelmente enfrentará uma oposição muito mais feroz do que a dos primeiros quatro anos e que lhe exigirá uma política mais conciliatória. Ademais, é necessário que avaliemos o resultado eleitoral como uma vitória petista apenas parcial já que o partido perdeu espaço no centro-sul, tendo saído das urnas com apenas um governador num estado de ponta: Minas Gerais.

                O chamado “petrolão” deu um molho especial à campanha. Mais um escândalo de corrupção num governo petista, somado aos anteriores e às práticas explícitas de aparelhamento da máquina estatal pelo partido (quem conheceu os sindicatos dirigidos pela Articulação não se surpreendeu com isso) levaram a classe média a um ódio quase mortal ao PT. Esse cenário associado à massificação eleitoreira da mídia fez com que o Brasil rachasse no segundo turno a partir da criação da falsa imagem de que haveria uma polarização na disputa eleitoral entre dois candidatos que representariam dois projetos antagônicos.

                Pela primeira vez os petistas iniciarão um governo de modo envergonhado. Não possuem mais o apoio incondicional dos movimentos sociais (que foram chamados às pressas na reta final de campanha para ajudar a impedir a vitória tucana) e já não têm a mesma moral de antes perante a sociedade no que diz respeito à ética e ao bom gerenciamento da máquina pública. É certo que adotarão táticas menos arrogantes e independentistas, pois caso contrário os gritos de impeachment para a presidente podem ecoar mais fortes (embora nem de longe seja este o desejo da burguesia brasileira) e uma nova eleição em 2018 ficará mais distante. É bem provável também que para acalmar os seus críticos coloquem em prática as reformas tributária, trabalhista e política, que, podemos apostar, significarão mais ataques para a classe trabalhadora e seus partidos de menor representação parlamentar.